Semelhanças e diferenças

Walter Barelli*
17 de junho de 2011

Já está generalizada a sigla Brics para se referir aos principais países emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China, a que mais recentemente se juntou a África do Sul). No mapa-múndi, dois desses países estão no hemisfério sul e os outros no hemisfério norte. Diferentemente das experiências de mercado comum (UE e Mercosul), não se trata de países contíguos, nem de histórias semelhantes. Embora tivessem tido em comum, durante décadas, a mesma ideologia, não é ela que, hoje, aproxima a China e a Rússia. Do mesmo modo, antigas possessões europeias, Brasil, Índia e África do Sul não têm culturas semelhantes.

Olhando na ótica dos recursos humanos, também há muitas diferenças. A educação tem sido apanágio do socialismo real. Assim, a Rússia tem praticamente toda a população com mais de 15 anos alfabetizada, enquanto a China tem 91,6%, sendo que para homens a taxa é de 95,7% e para mulheres, de 87,6%. No Brasil, está alfabetizada 90% da população com mais de 15 anos e na África do Sul, 88%. A Índia aparece na última posição com a taxa de apenas 66%, embora tenha um setor tecnológico mundialmente reconhecido.

No capítulo da renda, o tamanho da população condiciona o PIB per capita. Os países mais populosos têm menor PIB por pessoa, em dólares (Índia, 1.075, e China, 3.769). A seguir, temos África do Sul, 5.707; Brasil, 8.114 e Rússia, 8.736. Mas o ranking das condições de vida é mais bem visualizado pelo IDH: Rússia, 0,719; Brasil, 0,699; China, 0,663; África do Sul, 0,597, e Índia, 0,519. Evidentemente, a situação é diferente, na ótica do tamanho do PIB (do maior para o menor: China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul).

O sistema de relações do trabalho reflete a história dos respectivos países. No Brasil, a influência fascista italiana deixou marcas difíceis de serem todas extirpadas. Ainda convivemos com a informalidade e com a chaga do trabalho forçado. Rússia e China, cada qual, ao seu modo, estão construindo novos modelos de relacionamento, já não mais nos padrões do antigo modelo comunista. A Índia pode ter herdado algo da organização inglesa, mas mais fortes foram os estatutos das castas, que agora estão sendo proclamados ilegais. A África do Sul viveu no apartheid a maior segregação racial, com sindicatos de brancos, colored people e negros e hoje está em processo de democratização das instituições. Em resumo, não há muito a ser transposto de uma nação para outra.

A experiência relatada é que a empresa brasileira que vai para outro país tem de estar aberta para entender a cultura trabalhista local. O mesmo acontece com a companhia estrangeira que vem para o Brasil. Não há padrões universais. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) procura construir o que foi denominado “trabalho decente”, estabelecendo de forma tripartite consensos mínimos para o mundo do trabalho. Os Brics são a novidade deste século. Sua expressão atual é a pujança econômica. Poderão também ser construtores de civilizações mais responsáveis socialmente. Esse pode ser um item importante para compor a sua agenda.

* Walter Barelli é economista, professor da Unicamp e conselheiro da ABRH-SP

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