Sempre o outro

12 de Fevereiro de 2014

Todos compungidos.

O governador disse que qualquer um sabia que um acidente poderia ocorrer,

O prefeito disse que Corpo de Bombeiros e Polícia são instituições estaduais, e não municipais,

O advogado disse que oinvestidor não tinha atuação gerencial, e que o incêndio foi uma fatalidade;

O vendedor disse que alertou sobreo uso exclusivo daquele  artefato pirotécnico  em ambientes abertos,

O representante do Corpo de Bombeiros disse que há milhares de pedidos e que as inspeções podem levar mesese que vai instaurar inquérito para determinar as responsabilidades da instituição,

O produtor de espetáculos disse que a Prefeitura não tem moral para fechar casas,

O diretor de teatro disse que está havendo paranoia,

O músico disse que o extintor de incêndio não funcionou.


Pano rápido:
Matheus Rafael Raschen, 20 anos, e mais 235 pessoas morreram em Santa Maria.   


Como fatalidade?

Não se trata de uma indignação pequeno burguesa, provocada pela rigidez moral da classe média. Nós também cometemos nossos delitos. Levante a primeira pedra.  Também não se trata de uma tragédia localizada. Há algo maior por detrás disso tudo.

Quem é o governante que se coloca acima do interesse público, jamais assumindo sua cota de responsabilidade?

Quem é a burocracia que leva meses paradecidir sobre um alvará? Em seu nome, todos os pecados parecem ser permitidos.  É fácil culpá-la, porque não tem carteira de identidade nem CFP. Seus agentes escondem-se na distinção entre pessoa e papel, sendo todos excelentes pais de famílias, o que não impede de administrarem irresponsavelmente o bem público.

Quem é o investidor que não interfere na gestão, especialmente num micro negócio como a boate Kiss? Uma empresa é algo que se justifica na medida em que atende a uma necessidade da sociedade, no caso o entretenimento.   Se é o investidor que viabiliza um projeto, como isentá-lo de suas consequências?

Quem é o gestor que mantém a casa cheia deixando de prover serviços básicos de segurança e proteção ao cliente?

Quem são produtores e diretores que transferem para o Estado responsabilidades que também são suas?

Quem somos nós, que choramos as tragédias, achando que sempre acontecem com os outros ?

Choramos em conforto.

Muitas são as filosofias que tratam dos valores na vida, mas nenhuma pode excluir a nossa relação com a sociedade. Cidadania é uma expressão política, em seu melhor sentido, que nos torna protagonistas em todos os sistemas em que atuamos.  Não dá para lamentar e ficar por isso mesmo, até que um novo evento provoque nossa indignação. 

Somos limitados, vulneráveis, frágeis, mas também pessoas que não podem se dar o luxo de achar que tudo o que acontece de errado está nos outros. Impotência não rima com democracia. Valor não rima como torpor. Como disse Pascal, o todo está na parte. 

Em Santa Maria, perdemos 1/236 de nossas vidas.

E depois?

Até quando?

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