Seres autônomos e heterônomos

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Eugenio Mussak / Crédito: Divulgação
Eugenio Mussak é professor da FIA, consultor e autor / Crédito: Divulgação

Lembro-me de um filme antigo, da década de 1960, chamado Bon Voyage!, protagonizado pelo veterano comediante americano Fred MacMurray. Ele interpreta um turista em visita a Paris, que resolve conhecer os subterrâneos da cidade-luz, acompanhando um grupo conduzido por um guia local, e acaba protagonizando uma cena tão engraçada quanto pedagógica.

Atraído –  e traído – por sua curiosidade, ele se afasta do grupo e termina por perder-se no emaranhado de galerias que quase formam uma segunda Paris, subterrânea. Já em desespero, percebendo a noite chegar, encontra uma tampa de bueiro que ele poderia alcançar esticando bem o corpo. Coloca, então, três dedos através dos furos, na esperança que esse pequeno e patético aceno fosse percebido por alguém.

E, de fato, alguém vê os desesperados dedinhos em movimento frenético – um gendarme, um guarda de trânsito parisiense, galante e orgulhoso. Se o policial se surpreende com o fato, não o demonstra, apenas  comenta fleumático com seu colega, e lhe pergunta o que eles deveriam fazer. O outro, então, sem hesitação, sentencia:

— Não vamos fazer nada. Não é de nossa conta, pois nós cuidamos do trânsito, do que está acima das ruas, e não do que está abaixo. Allez au travail, mon collègue!

A cena pode ser engraçada, carregada de humor sarcástico, mas também é representativa da tragédia do descompromisso, da invalidez funcional justificada pela definição estanque de papéis. Heteronomia em estado puro. Infelizmente ainda há muitas situações de heteronomia como essa, basta que você pense um pouco sobre os serviços prestados em hotéis, clínicas, lojas, repartições públicas. O tema é tão comum que é assunto recorrente nas escolas de negócio, universidades corporativas, e chega a ser abordado pela literatura, pelo teatro e até pelo cinema, como vimos.

A título de definição, heteronomia é a obediência cega às normas criadas por outros, considerados superiores. É própria dos sistemas totalitários e de empresas cuja gestão é baseada no binômio comando-controle. Já autonomia é bem diferente. Trata-se da obediência às normas próprias, e também às normas criadas por outros após serem entendidas, aceitas, apropriadas e adaptadas à situação.

Pessoas autônomas são mais produtivas e capazes, desde que, claro, sua autonomia seja responsável, consentida e até desejada. Autônomos assumem a responsabilidade, heterônomos transferem. Autônomos resolvem, heterônomos estancam. Há ainda uma terceira possibilidade, a anomia, que significa a ausência de normas ou leis, situação que gera anarquia e prejudica a organização. Esta, claro, é impensável, pois não há organização humana, seja uma empresa, uma família e a própria sociedade, que possa funcionar sem o estabelecimento de normas, sejam elas explícitas ou tácitas, consensuais.  

O tema da autonomia não pode estar fora do script organizacional. Estabelecer limites, definir responsabilidades, criar culturas adequadas sobre o tema fazem parte da gestão inteligente de pessoas e do exercício da liderança consciente.  Se não o fizermos, corremos o risco de ficar presos nos subterrâneos do progresso.

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