Gestão

Servir de exemplo

Elias Awad*
26 de julho de 2010

A busca para atingir um patamar de liderança nas organizações tem despertado um constante aprimoramento profissional e a capacidade de mobilizar e convergir todos em prol de um único objetivo. Alcançar essa posição demanda anos de experiência e conhecimentos, mas, com certeza, tem feito com que muitos profissionais, em especial os da geração Y, tenham uma visão mais prolongada de carreira. Ou seja, a oportunidade de oferecer cargos de liderança tem sido um dos motivadores para que os jovens permaneçam por mais tempo na companhia e repensem na possibilidade de construir carreira em uma empresa. Fato este não muito comum hoje em dia, já que a geração Y é inquieta, almeja novos desafios diários, melhores salários e chega a acreditar que permanecer por muito tempo na mesma organização pode tornar o profissional estagnado frente ao mercado.

Mas, afinal, o que é preciso para liderar e a que os executivos devem voltar sua atenção para ser como os grandes líderes? Antes de tudo, é preciso que esses profissionais não se iludam muito, mas se lembrem sempre de manter a perseverança como diretriz de seu caminho. Mesmo porque não se pode contar com a vitória todos os dias e a derrota também é um aprendizado, principalmente no começo da carreira. E, acima de tudo, deixe a ousadia falar mais alto, ande de mãos dadas com a humildade e seja humanista, esta última tem influência direta na gestão de pessoas.

Ousadia para deixar fluir ideias originais e projetos inovadores que causem impacto e sejam um portfólio de suas peculiaridades enquanto profissional e pessoa. Humildade para ter uma equipe capaz de brigar e defender seus ideais justamente porque acredita no papel do líder que a conduz e reconhece sua capacidade, conhecimento e valor moral. Para isso, mostre aos liderados que as dificuldades devem ser enfrentadas e transformadas em oportunidades.

Antes de apresentar mais características que os líderes têm em comum, é preciso revelar os dois grandes mestres empresariais que me deixaram o legado citado acima. São eles Affonso Brandão Hennel, fundador da Semp Toshiba, e Samuel Klein, fundador da Casas Bahia. Esses são dois nomes que construíram um império no país com base em tais princípios. Durante horas de conversas com ambos, percebi de maneira muito clara que não se deve ter o dinheiro como objetivo do negócio ou do crescimento da empresa, mas, sim, como resultado. Outra ação contínua que faz com que os líderes ganhem a confiança dos liderados é o constante feedback. Para isso, tenha também um feeling apurado e aposte nas suas convicções. E mais uma vez, insisto, seja humano enquanto gestor.

Affonso Brandão Hennel, depois de uma minuciosa análise, entendeu que ele conseguia fazer com que colaboradores colocassem em prática aquilo que ele pretendia. Mas certo dia ele fez uma pergunta a si próprio: “Os que vêm à minha sala, será que saem mais felizes do que entram?” Naquela altura da vida dele, entre os anos 1970 e 1980, entendeu que não. Foi então que Hennel passou a dedicar-se a conhecer melhor o ser humano: suas necessidades e fraquezas; suas ambições e limitações. E com isso almejou sempre fazer com que as pessoas saíssem da sala dele melhor e mais felizes do que entravam. Ou seja, retribuiu a lealdade e compromisso que cada colaborador tinha com ele e a empresa para a qual trabalhavam.

Com Samuel Klein conferi algo que vai além da humanidade em uma gestão de pessoas e que ultrapassa os muros corporativos. Ouvi inúmeros depoimentos de pessoas que o acompanharam solicitando a alguns funcionários das lojas que quitassem carnês de clientes que não podiam pagar as prestações, fosse por dificuldade financeira ou mesmo por haverem sido vítimas de uma fatalidade, como uma senhora que teve a casa queimada. Além de ele liquidar as prestações que faltavam com dinheiro do próprio bolso, enviava à casa da pessoa eletrodomésticos novos para que recomeçasse a vida. Ele fez o certo? Não, ele fez o que o coração dele mandou.

Acima de tudo aprendi com eles que nunca se atrasam os salários. O dinheiro do colaborador é sagrado. E Klein ia ainda mais além: ele determinava que em datas comemorativas como Dia dos Pais, das Mães, dos Namorados, das Crianças, entre outros, todos os colaboradores – do mais simples ao mais alto cargo – recebessem um valor que permitisse a compra de um presente para o pai, mãe, namorado (a), filho (a)… Afinal, ele sabia que investir nas necessidades básicas dos colaboradores, como assistência médica, ensino, casa própria, alimentação etc. são direitos de todos os cidadãos. E atrás de um bom profissional existe, antes de tudo, um ser humano, uma vida em jogo que necessita ser valorizada para trazer “bons frutos” à companhia.

Respeitar isso é uma demonstração do reconhecimento que a empresa tem por toda a dedicação daquele colaborador. E além de reter talentos, estimula o crescimento profissional e valoriza os membros de uma equipe.

Portanto, para conduzir grandes projetos o segredo é ousar de maneira a mobilizar toda uma equipe, ter humildade e humanidade para recuar e orientar quando necessário, a fim de obter o sucesso e progresso contínuo dos negócios. Com isso, todos crescem. Se os liderados crescem, o líder e a empresa também crescerão.

*Elias Awad é biógrafo e palestrante corporativo

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