Sipat Virtual

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Sipat Virtual / Crédito: Shutterstock
Crédito: Shutterstock

Lesões por esforço repetitivo, enfermidades osteoarticulares relacionadas ao trabalho, doenças sexualmente transmissíveis e tabagismo são alguns dos temas que, com certa recorrência, são tratados na SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho1). É aquela semana em que a companhia reúne os funcionários para assistirem às palestras sobre saúde, segurança no trabalho e prevenção de acidentes. Com agenda apertada, o analista comercial Giuliano Gelli, de 39 anos, encarava a semana, que deveria trazer apenas benefícios, com certo estresse. “Eu tinha de dizer com antecedência o dia e o período em que eu ia e tinha de me deslocar [para os locais onde as palestras eram ministradas]”, conta. “O problema é que trabalho na área comercial e tenho compromissos que envolvem outras pessoas, visito muitos clientes. Muitos deles não são agendados com tanta antecedência e eu tinha de trocar a data da palestra ou mesmo a do compromisso – causava certo transtorno e gerava estresse”, conta.

+ Pela saúde dos colaboradores
De acordo com a legislação trabalhista brasileira, a Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho, mais conhecida pelo acrônimo SIPAT, é um evento obrigatório nas empresas instaladas no Brasil. A SIPAT deve ser organizada anualmente pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) em conjunto com o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) com o objetivo de conscientizar os empregados sobre saúde, segurança no trabalho e prevenção de acidentes.

No final do ano passado foi diferente. O Bradesco, banco onde Gelli trabalha há 14 anos, resolveu mudar o protocolo e fez da tradicional semana de palestras uma experiência digital. Levou o conteúdo obrigatório e outros 36 temas para uma plataforma on-line disponibilizada para os funcionários durante 30 dias úteis, 24 horas por dia. “O objetivo era aumentar o número de pessoas que tinham o acesso à SIPAT e também fazer uma integração. Com uma SIPAT on-line, sabíamos que poderíamos fazer mais”, afirma Glaucimar Peticov, diretora de RH do banco. Bom para Gelli. “Com o digital, consegui me organizar para acessar o conteúdo no horário e da forma que era melhor para mim”, conta.

Aprovação do projeto
Acostumado ao e-learning desde 2000, para treinamentos e palestras, o banco investiu não apenas recursos, mas também tempo para formular a SIPAT on-line. Foi uma reunião atrás da outra com o sindicato da categoria e o Ministério do Trabalho para apresentar a plataforma e o conteúdo. “Todo esse tempo para mostrar que estávamos falando para os funcionários mais do que era preciso e para demonstrar que queríamos democratizar o acesso do conteúdo da SIPAT”, conta Glaucimar. Ao fim, a plataforma passou pelo crivo dos órgãos e em dezembro de 2013 foi colocada no ar; o conteúdo ficou aberto até janeiro.

Glaucimar Peticov / Crédito: Divulgação
Glaucimar, do Bradesco: o papel das lideranças foi multiplicador / Crédito: Divulgação

A abordagem diferente tinha o objetivo de transformar o conteúdo em aprendizado que de fato ajudasse os funcionários a promoverem mudanças em seus hábitos. E tornar este conteúdo acessível e atraente tinha de ser o primeiro passo da estratégia. A consultoria Proposito foi chamada para ajudar o banco nesta tarefa. A companhia customizou a plataforma e o conteúdo. “Uma SIPAT, normalmente, é um pouco escravizadora: ou você assiste àquela palestra ou você perde. É uma interação forçada”, avalia André Caldeira, diretor-geral da consultoria. “Dessa forma, a ideia era ser mais de vanguarda, ampliar o escopo da SIPAT, em temas, números de pessoas e tempo de interação, e permitir o acesso em diversos lugares a qualquer horário”, explica.

No formato on-line, a consultoria ampliou o conteúdo, dos quatro temas obrigatórios para quarenta. “Transformamos a obrigatoriedade em oportunidade de educação”, avalia. Foram tratados cinco eixos: o físico (alimentação, saúde da mulher e respiração); comportamento (depressão, estresse e hobbies); hábitos (tempo de qualidade, família, álcool, asseio profissional); organização pessoal (conflitos, colaboração e mudanças) e ambiente de trabalho (administração do tempo, pausas e volume e organização do trabalho).

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Luiz Edmundo Rosa / Crédito: Adriano Vizoni
Edmundo da ABRH-Nacional: a tecnologia precisa ser complementada com a experiência / Crédito: Adriano Vizoni

Os assuntos foram escolhidos de acordo com o que o banco considerava estratégico. “São pontos e preocupações que ouvimos dos próprios funcionários ao longo dos anos”, afirma Glaucimar. “E queríamos trazer este aspecto social, porque embora cada um tenha a responsabilidade pela própria carreira, a empresa também tem responsabilidades”, completa.

A cada dia, um tema novo era colocado no ar, para gerar novas visitas à plataforma. Era um vídeo, acompanhado por matéria, dicas práticas, enquetes, frases de motivação e artigos sobre o tema. Tudo com a ideia de tornar o conteúdo acessível e gerar impacto nos funcionários. “Mudanças de hábito não se fazem com palestras de uma hora na semana. Tem de trabalhar o nível racional e emocional e fazer com que a pessoa perceba os resultados da mudança”, diz Caldeira.

Joe Labor
Para permitir acesso a todos, a interface da plataforma, desenvolvida por empresa parceira, permitia acesso tanto por meio de internet discada como pela banda larga. Em linguagem de cartoon, os vinte vídeos tinham cerca de dois minutos – para prender a atenção do funcionário. Um personagem, o Joe Labor, conduzia todos os conteúdos. Nos vídeos, o workaholic fazia tudo o que não podia ser feito na vida real, desde trabalhar demais, a não comer direito ou não fazer exercícios. E as consequências da desatenção eram mostradas. Os temas mais acessados foram: trabalho em equipe, concentração, objetividade e decisões, atividade física, alongamento e família. Todos envolviam mudanças de hábitos.

+ Muito trabalho e pouco estress
Joe Labor é o personagem principal da narrativa redigida por André Caldeira no livro Muito trabalho e pouco estresse: conheça Joe Labor e talvez um pouco mais sobre você (editora Évora). Na história, Joe Labor é um workaholic que coloca sua carreira acima de tudo. O trabalho e a vontade de crescer profissionalmente são as grandes prioridades da vida de Joe, que é motivado pelo desejo de ser promovido, de ganhar mais dinheiro e de não ficar atrás dos colegas na corrida corporativa. Mas Joe paga um preço por tamanha dedicação ao trabalho: pouco tempo para a família e amigos, para sua vida pessoal, para seu autoconhecimento e sua saúde, para si mesmo.

O modo como os temas eram apresentados chamou a atenção de Gelli, o analista comercial. “O formato permitia que você acessasse aquilo que mais lhe interessava. Era fácil”, conta. Dos temas disponíveis, o funcionário se interessou pelos relacionados à saúde. “Por conta da correria, nem sempre a gente faz o check-up e temos costumes que podemos mudar ou melhorar – muitas vezes é um detalhe que chama a atenção”, conta. Após o conteúdo, o analista está fazendo pequenas melhorias. Antes, ao chegar ao trabalho, já começava a digitar. Hoje, ele separa alguns minutos para fazer alongamento antes de iniciar a rotina de trabalho. A alimentação também mudou: menos fast-food e mais verde. “Não fumo e não bebo, mas minha alimentação parecia a de um adolescente”, conta. Na agenda uma meta: perder cinco quilos.

Engajamento das lideranças
A plataforma permitia a postagem de comentários – o que gerava engajamento. “Outro cuidado foi o de usar uma linguagem acessível a todos”, conta Caldeira. E com senha era possível acessar de casa, o que ampliou ainda mais a esfera de beneficiados. Para gerar visitação, a comunicação interna do banco atuou antes, durante e depois da ação. Em eventos internos, não importasse o tema, os participantes eram lembrados a acessar a plataforma e estimulados a falar com liderados e colegas. O banco trabalhou com todos os meios internos: e-mails, intranet, jornal interno e eventos. “O principal ponto era sensibilizar o funcionário e fazer com que ele entrasse na plataforma. Nesta ocasião, o papel das lideranças foi multiplicador”, afirma Glaucimar.  

Os resultados do trabalho foram positivos. Enquanto uma semana tradicional envolvia cerca de 9 mil funcionários, com a estratégia digital, o alcance foi de 104 mil colaboradores de 4 mil locais diferentes – 65% do quadro nacional do Bradesco. Foram cerca de 40 mil horas de navegação, mais de 337 mil visualizações de páginas e uma duração média de 7 minutos por visitação. Dos 2.670 comentários feitos na plataforma, 99% eram positivos. A plataforma foi tão bem-vinda que ela será usada nas próximas edições da SIPAT. “Neste momento, a ideia é aprimorar e surpreender”, afirma a executiva.

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