Superar os enroscos corporativos

Michele Hunt*
28 de Maio de 2010

Ao andar pelo mundo, observo que quase tudo se modificou. O impacto do alastramento das crises econômicas, políticas, sociais e ambientais eclodindo pelos países, comunidades, organizações – combinado com as mudanças profundas e imprevisíveis provocadas pelos avanços tecnológicos – é inacreditável. Dificuldades agravadas, sem que haja plantas ou mapas que nos ajudem a navegar através desses tempos de mudanças inéditas. A maioria das soluções do passado simplesmente não funciona no presente. A mudança mais difícil e mais importante que os líderes precisam fazer é a do seu modelo mental:

1 Os líderes precisam mudar a concepção do dinheiro como sendo o único propósito nos negócios. Essa mentalidade tem gerado um efeito devastador nas pessoas, nas organizações, nas comunidades e no meio ambiente. Em muitos países, incluindo o meu, o dinheiro se tornou o deus que veneramos. Nós colocamos o dinheiro à frente das pessoas, das famílias, das comunidades e do nosso planeta. Sacrificamos pessoas na busca de lucros cada vez maiores. Os líderes valorizam quantidade em detrimento de qualidade e coisas materiais em detrimento da vida. Nossas métricas econômicas estão invertidas. A maioria dos líderes, atualmente, tem um foco muito estreito. Albert Einstein tinha uma inscrição pendurada em seu escritório em Princeton que dizia: “Nem tudo o que conta pode ser contado, e nem tudo o que pode ser contado é o que conta”.

2 Os líderes precisam mudar seu modelo mental no que se refere às pessoas e começar a entender e a aceitar o fato de que elas são extraordinárias e capazes de conquistar feitos extraordinários. Quando as pessoas são tratadas com dignidade e respeito, e têm a oportunidade de contribuir com seus dons, elas geram ótimos resultados. Dee Hock, fundador e ex-CEO da Visa, disse de forma brilhante: “Sem sombra de dúvida, o mais abundante, mais barato, mais subutilizado e o mais frequentemente maltratado recurso do mundo é a inventividade humana. O dinheiro não motiva nem as melhores pessoas, nem o melhor das pessoas. Ele pode alugar o corpo e influenciar a mente, mas não pode tocar o coração e mobilizar a alma; isso é reservado para as crenças, os princípios e a ética”.

3 Os líderes precisam dar aos seus seguidores um claro propósito (a missão), uma clara visão do futuro e, mais importante, um conjunto de valores compartilhados que guiem suas decisões e seus comportamentos. Eles precisam encontrar a coragem para mudar e alinhar tudo para servir à missão, à visão, aos valores e os objetivos da organização. Eles precisam aprender a aproveitar as mentes, os corações e a criatividade das pessoas (individualmente e em equipes) para alcançar os objetivos.

4 Os líderes precisam entender a liderança como uma função, não como uma condição. Eu acredito que a responsabilidade básica do líder é servir à missão, à visão e aos valores da organização, e liberar as pessoas para fazerem o mesmo. Definitivamente, o líder está lá para servir. A liderança que serve deveria ser um objetivo honorável a ser alcançado.

5 Líderes também precisam inspirar, agradecer e demonstrar que eles se importam com as pessoas.

Creio que essas qualidades serão necessárias para o sucesso das organizações no futuro. Os jovens que estão se incorporando à nossa força de trabalho, especialmente os “melhores e mais brilhantes”, não irão tolerar a velha mentalidade ou a forma tradicional de gerir pessoas – nem por dinheiro, nem por status. Minha filha de 28 anos não pode estar no “escritório” apenas por estar. Muitos de seus amigos, graduados em escolas de excelência, estão deixando carreiras nas quais investiram muitos anos: advogados abandonando o Direito; pessoas com MBA deixando as corporações; e até mesmo médicos se desiludindo. Os jovens estão pulando fora de organizações formais, em quantidade recorde, optando por liberdade e por um ambiente em que possam inovar e realizar um trabalho que tenha significado, mais do que simplesmente ganhar dinheiro.

A boa notícia é que, quando as pessoas têm oportunidade de participar, colaborar e inovar, livres de políticas obstrutivas e de estruturas que limitam o potencial e a capacidade de contribuir com o que têm de melhor, elas alcançam resultados incríveis. No ano passado, eu tive a oportunidade de trabalhar com uma equipe de inovação formada por jovens brilhantes oriundos da cultura da internet. Eles foram desafiados a apresentar um produto de internet que fosse inovador, moderno e a desenvolvê-lo mais rapidamente, melhor e mais barato do que qualquer coisa no mercado. O CEO permitiu que eles quebrassem as regras da hierarquia. Eles ignoraram as políticas corporativas relativas a estruturas e delimitações de espaço. Esses jovens não receberam um tostão a mais no salário e ainda assim trabalharam como se suas vidas dependessem daquilo. Eles desenvolveram laços de amizades, se divertiram e cumpriram a tarefa. Eles fizeram isso pela satisfação de criar algo novo e importante juntos, e pela oportunidade de contribuir e de aprimorar seus dons.

O segredo está na capacidade do líder de mobilizar as pessoas em torno de uma visão compartilhada e estimulante do que eles desejam criar; uma visão que esteja profundamente enraizada em valores. Quando os líderes fazem isso e tratam as pessoas com respeito e dignidade, seus seguidores participam entusiaticamente e seguem pelo caminho certo.

*Michele Hunt é uma das palestrantes do Congresso RH-RIO 2010, promovido pela ABRH-RJ, que tem como tema central O essencial é visível aos olhos – Transformando ideias em ações. O evento acontece entre os dias 8 e 10 de junho, no Centro de Convenções SulAmérica, no Rio de Janeiro. Michele irá ministrar a palestra Visão em ação – A gestão com pessoas para o Rio que queremos, em duas etapas, uma no dia 9, das 9h às 10h45, e outra no dia 10, das 16h às 17h30.

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