Talentos no lugar de recursos

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Existe um discurso de que gente é o principal ativo de uma empresa.  Mas, na verdade, no Brasil, a maioria absoluta sequer tem um departamento especializado em cuidar das pessoas.  Nas pequenas empresas, 100% desse assunto fica a cargo do contador; nas médias, em mais de 70% dos casos, costuma ficar a cargo do diretor administrativo-financeiro; somente em grandes empresas vamos encontrar com maior frequência uma área estruturada de RH vinculada diretamente ao CEO. Dessas, poucas têm prestígio e poder à altura do significado do patrimônio humano de que cuidam. Poucas conseguem participar da estratégia dos negócios ou sequer são ouvidas previamente em ações relevantes.

Com raras exceções, mesmo naquelas que já entenderam a necessidade de valorizar e modernizar a área de gestão de gente, o nome da área ainda se chama “recursos humanos”.  É assim chamada porque é desta forma que as pessoas ainda são vistas: como recursos, como tal são as máquinas, e não como seres pensantes, inteligentes, que realmente fazem a diferença.  Daí não é difícil concluir por que a chamada área de RH ainda é tão desprestigiada. Como dizer que as pessoas são o ativo mais importante de uma empresa, se até a área que deveria ser a impulsionadora é ignorada? 

Há várias expressões que podem demonstrar o verdadeiro valor que pessoas representam para uma empresa, entre eles, “capital humano”, “valores humanos” ou simplesmente “gente”.  Não se trata de mais um modismo, ultrapassa a questão semântica, trata-se de dar significado; de elevar o pensamento sobre gente e seu valor.  O que achamos mais justo é adjetivar cada pessoa como um “talento” e para distingui-la de outras espécies animais, que também têm algum tipo de inteligência, basta qualificá-la como “humano”. Talento não é só sinônimo de genialidade, é também dos diversos tipos de inteligência, da capacidade de pensar, raciocinar, fazer conexões, imaginar, criar etc. Essas são competências que só a espécie humana tem em maior ou menor grau de desenvolvimento. Assim, em vez de recursos humanos o mais certo é chamar de “talentos humanos”, tanto o conjunto de pessoas, quanto a própria área que gerencia a política humana e as relações do trabalho numa organização.

Claro que só mudar o nome não resolve, porque é preciso a prática efetiva, mas já é o começo de uma mudança de mentalidade porque levará as pessoas a procurarem entender o conceito que está por trás.  Entender o conceito é o primeiro passo na construção de um significado que depois se transformará em atitudes. Como bem disse o psicólogo bielo-russo Lev S. Vygotsky, em A formação social da mente, o significado medeia o pensamento humano em sua caminhada desde a infância. Como o pensamento norteia a prática,  ao serem chamadas de talentos, os profissionais de uma organização já começarão a se interessar pelo significado e cobrar um respeito maior por seus valores e mais coerência por parte dos seus gestores entre aquilo que discursam e o que praticam.

* Cícero Domingos Penha é vice-presidente corporativo de talentos humanos do Grupo Algar

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