Ter mais o que fazer

    Pesquisas indicam que grande parte da população economicamente ativa no Brasil sofre com a sobrecarga profissional. As pressões psicológicas, preocupações e inseguranças a que trabalhadores de diversos setores e níveis hierárquicos estão submetidos todos os dias geram o tão conhecido estresse, mal da modernidade que pode levar ao desenvolvimento de sérios problemas de saúde. E essa tensão afeta 70% da população do país, sendo 30% dos brasileiros considerados em nível crítico, segundo estudos da International Stress Management Association (Isma-BR) e da Associação Brasileira de Stress (ABS). Profissionais em posições mais altas chegam a gastar 65 horas por semana do seu tempo no trabalho, o que contribui para o fato de que de 75% a 90% das consultas médicas ocorrem em função de doenças ligadas ao nível elevado de estresse.

    Para as empresas, o estresse ocupacional pode gerar queda de produtividade e aumento de gastos, pois se reflete em horas de trabalho perdidas, pagamentos de eventuais horas extras, além de elevados gastos com assistência médica. O custo do estresse no Brasil, de acordo com a Isma-BR, é estimado em 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional (cerca de 42 bilhões de dólares). Nos EUA, os prejuízos podem chegar a 300 bilhões de dólares.

    As instituições afirmam, ainda, que tanto o absenteísmo (ausência no trabalho por falta ou atraso) quanto o presenteísmo (estar fisicamente presente, mas não produzir), que contribuem para esse prejuízo das empresas, ocorrem mais em razão do estresse do que qualquer outro problema. Esses dados reforçam o fato de o bem-estar psicológico estar no topo da lista de quesitos para a conquista de uma qualidade de vida plena. Fatores como a autoconfiança e não se sentir constantemente estressado contribuem para o bem-estar, que pode também ser proporcionado, por que não, pelo cultivo de um hobby.

    Para o psiquiatra Paulo Gaudêncio, que se dedica há mais de 30 anos à terapia empresarial e que estará presente no CONARH 2010 (veja na pág. 46), qualquer hobby traz o benefício de tirar o foco das preocupações, proporcionando bem-estar. Ele explica que essas atividades, sejam esportivas ou não, como cuidar de uma coleção de objetos ou tocar algum instrumento musical, promovem a liberação de endorfina, que causam sensação de prazer. Porém, o especialista faz um alerta para que o hobby não se torne um vício, como ocorre em muitos casos com os esportistas, por exemplo, que com o aumento do volume ou intensidade da atividade, passam a produzir morfina no lugar da endorfina, o que pode ser prejudicial.

    Gaudêncio ressalta que o fundamental na escolha do hobby é buscar uma atividade que combata a causa do estresse, e não os sintomas. “Muitas vezes, as pessoas procuram atividades que atacam sintomas como o cansaço, ganho ou perda de peso, dores de cabeça, entre outros. Com isso, acabam aumentando a resistência para o trabalho e a resiliência, ou seja, a capacidade de vencer as dificuldades, porém, se esquecem de identificar e tratar a causa do estresse”, acrescenta.

    Focar causa
    Com o aumento de casos de estresse ocupacional, em função de exigências cada vez maiores por resultados, as empresas têm estimulado o profissional a realizar atividades ou a se envolver em programas de qualidade de vida. No entanto, a maioria deles está focada nos sintomas, o que não é interessante para quem está sofrendo com o problema. “Infelizmente, a solução para essa situação não irá partir de nenhum gestor ou companhia. É preciso que a pessoa afetada identifique o motivo de seu estresse e busque soluções para se curar”, afirma Gaudêncio. A seguir, confira como dois executivos ligados a RH usam (e bem) seus hobbies para equilibrar vida e trabalho. Ou ao menos para ter mais o que fazer nos momentos de lazer.

    Viajante profissional, colecionador amador

    Cansado de passar horas esperando pelos voos sempre atrasados, Almiro dos Reis Neto, presidente da Franquality, começou a circular pelas pequenas lojas e a procurar por algo a fazer e percebeu que todo aeroporto tinha um conjunto divertido de souvenirs do país ou da cidade em que estava. “Geralmente, uma lembrança bem característica do local: uma pequena imagem do Cristo Redentor ou do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, do Gaucho Laçador, em Porto Alegre, e do Berimbau, em Salvador”, diz.

    E assim ele começou a colecionar lembranças das cidades por onde viajava. “Primeiro, para matar o tempo entre voos e filas caóticas e, depois, pelo prazer de ser um turista colecionador”, confessa, admitindo ter dezenas, “talvez centenas”, de pequenas lembranças de lugares que visitou.

    “Ao longo de minha vida, já estive em cerca de 40 países, da Argentina ao Canadá, nas Américas, da Itália à Islândia, na Europa, também na África, Oriente Médio e Ásia. Ainda quero conhecer muita coisa, como a Antártida e a Oceania. Planos não faltam”, comenta.

    As peças ficam expostas em uma mesa no escritório dele e são sempre motivos de um bom papo cada vez que um amigo ou cliente visita a sala dele pela primeira vez. “Algumas lembranças são emblemáticas, como a da sereia, que comprei após um tour de navio de um dia pelo rio Reno visitando as vinícolas às margens do famoso rio, degustando vinhos brancos, enquanto esperava uma conexão de voos em Frankfurt, Alemanha”, recorda.

    Ele gosta muito, também, das Torres Gêmeas Petronas, da Malásia, pois foram cenário no filme Armadilha, com Sean Connery e Catherine Zeta-Jones. “Estive em Kuala Lumpur, capital da Malásia, para receber um programa de desenvolvimento da Ericsson que trouxemos para o Brasil. Claro que atualmente a Malásia também é muito famosa pela corrida de Fórmula 1.”

    Mas nem todas as peças foram compradas por ele. “Agora que minha coleção já ficou ´famosa´ entre os amigos, muitos querem contribuir. A Franquality tem feito frequentes treinamentos por toda a América Latina. Por exemplo, recentemente realizamos alguns workshops na Colômbia e no Equador e um dos nossos consultores trouxe para mim, como lembrança, o marco do ´centro do mundo´”, conta.

    Almiro tem, ainda, algumas peças históricas como o World Trade Center, de Nova York, que já não existe mais. “Estive lá, no alto do prédio, e também trouxe esta lembrança inesquecível, agora para poucos. Naqueles dias, fiz até um passeio de helicóptero em volta dele. Era possível e ninguém via risco algum nisso. Bons tempos…”, comenta.

    A beleza de Paris
    Sempre que lhe perguntam sobre qual o lugar mais bonito em que ele esteve, Reis responde que muitos são inesquecíveis pela sua originalidade e pela perplexidade que causam a qualquer visitante. “As luzes do deserto do Atacama, no Chile, são surpreendentes, além do fato de não chover há mais de 70 anos! As geleiras eternas da Patagônia são de tirar o fôlego e provocam uma profunda reflexão sobre o que temos feito com o nosso planeta. Da mesma forma, conhecer os Cedros do Líbano frente a frente, um ser vivo com mais de 600 anos de vida, mais antigo que o Brasil, é absolutamente surpreendente.”

    No entanto, ele revela que a cidade mais linda é Paris, seguida de muito perto pelo Rio de Janeiro. “Ver as praias do alto, e pousar no Santos Dumont no fim de tarde sempre me faz sentir um menino que vê aquilo tudo pela primeira vez! Eu nunca me canso de ir à Cidade Maravilhosa. Aliás, faz tempo que eu não vou ao Rio de Janeiro. Algum cliente em potencial me convida?”, brinca.

     

    Entre as cordas da guitarra e a mesa no trabalho

    A vida do diretor de recursos humanos da Rede TV!, Jorge Fornari Gomes, se divide em duas paixões – a música e o mundo corporativo. Na música, tudo começou por causa dos Beatles, quando um colega de classe de Fornari apareceu tocando I wanna hold your hand. “Pedi que ele me ensinasse a tocar. Daí, surgiu uma dupla e, em seguida, uma banda. Nossa primeira apresentação foi no Colégio Caetano de Campos [na capital paulista, bem na Praça da República, e que hoje abriga a Secretaria Estadual de Educação], em 1965. Depois, começamos a tocar na noite para as prostitutas das boates da rua Major Sertório. Fizemos, ainda, alguns programas de TV na Excelsior e Tupi”, lembra o diretor.

    Mas quando chegou o ano de 1969, ele percebeu que a música não resolveria sua vida e foi, então, que entrou no curso da Fundação Getulio Vargas (Eaesp) e começou sua trajetória na carreira gerencial. Mas ele garante que nunca parou de tocar e compor. Em 2001, por exemplo, lançou um disco com músicas autorais, dirigido pelo amigo Ghizzi. Foi nessa época, também, que surgiu sua banda, o Double G – de Ghizzi e Gomes].

    Apaixonado por rock internacional – suas maiores referências são Elvis, Brenda Lee, Everly Brothers, Dion e Beatles -, o executivo garante que em seu repertório nunca aparecerão nem rock brasileiro, nem músicas populares brasileiras. “Já foi aversão. Hoje, é apenas por definição”, completa o diretor de RH, que ressalta que o rock sempre exerceu um fascínio especial sobre ele. “Creio que foi algo instintivo, pois não senti o mesmo com a Bossa Nova, por exemplo. O Nelson Motta diz em seu livro [Noites tropicais] que o rock surgiu na periferia, no urbano, e eu fazia parte disso”.

    Fornari nasceu na cidade de Campinas, mas foi criado na capital paulista, entre os bairros de Perdizes e Barra Funda, quando, segundo ele mesmo conta, “aquilo era apenas uma várzea”. “De uma certa maneira, vivíamos ao longo da estrada de ferro, algo muito parecido com o ambiente de Liverpool. Isso favoreceu o desenvolvimento de alguns traços culturais semelhantes. Lembro-me de ficar ouvindo os primeiros rocks no radinho Spica, o que seria o iPhone da época, lá pelos anos 60”, diz.

    Vidas entrelaçadas
    Quando questionado sobre os momentos mais marcantes de sua trajetória na música, ele lembra de um show, em 2008, no Bourbon Street, um dos locais mais típicos dos amantes da música, em especial do jazz, quando ele (Fornari) completou 60 anos. Naquele dia, seu neto Edmundo, com dois anos e meio, esteve ao seu lado no palco. “Ele fazia de conta que tocava e era um roqueiro perfeito! Esse foi um momento especial, algo impossível de explicar ou comparar.” Isso sem falar nas duas vezes que tocou em palcos como o Teatro Cultura Artística.

    Mas nem tudo foi fácil para conciliar esses dois mundos. Em dois momentos, o executivo sentiu um certo preconceito por alinhar a música a sua carreira em RH. “Numa das empresas, os colegas gostavam, mas de certa maneira eu e outros amigos músicos éramos vistos como bons vivants ou um tipo de gente não muito séria. Em outra, tive grande apoio da presidência (um estrangeiro esclarecido), mas os inimigos sempre mandavam farpas”, lembra. Foi apenas durante sua passagem na Claro que sua vida musical deslanchou e houve melhor integração. “Ser músico nunca foi uma boa referência. É comum alguém perguntar no que você trabalha, como se a música não fosse um trabalho. E é”, ressalta. Mas isso não o intimidou, já que percebeu que as competências da música (palco, desinibição, frisson etc.) e do treinamento eram as mesmas. E, hoje, a música continua sendo parte integrante de sua vida, como também é a vida corporativa, as aulas na ESPM e agora na BSP, e os livros e artigos publicados. “As duas vidas (musical e corporativa) se entrelaçaram e já não sei onde começa uma e termina a outra”.

     

    Empresa sustentável

    Você pertence a uma organização sustentável? Como ela deve funcionar? Quais políticas de gestão de pessoas devem existir para que essa empresa seja assim caracterizada? Existe futuro para uma companhia com esse perfil? Essas e outras questões serão debatidas por Paulo Gaudêncio, Vicky Bloch e a diretora executiva de RH da Telefônica, Françoise Trapenard, na palestra Gestão (in)sustentável de pessoas – contradições entre discurso e prática, que será realizada no dia 19 de agosto.

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