Gestão

Trazer o talento ainda jovem

Michele Rinaldi
5 de dezembro de 2013
Gustavo Morita

Thaís, da P&G: há muitos anos a empresa pratica a política de “promover de dentro”, ou seja, todos os altos executivos começaram suas carreiras na empresa – muitos deles como estagiários

Quando entrou na faculdade de engenharia, aos 17 anos, a paulista Mariana Braulio não tinha muita ideia do que viria pela frente – um caso mais do que comum entre os jovens universitários. Depois de deixar a cidade grande para trás e se mudar para São Carlos, no interior de São Paulo, a garota precisou se adaptar à nova realidade e dar os primeiros passos sozinha. Aluna da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Mariana sempre via informações sobre os projetos da Alcoa, produtora global de alumínio, espalhadas pelo campus. A empresa soube conquistar Mariana e o flerte deu certo. “Comecei a me interessar pela companhia e fui procurá-los”, conta.

O encontro se deu ali mesmo, dentro da universidade. A Alcoa, que mantém um prédio com laboratório dentro da instituição, laçou Mariana. Foram três anos de estágio até que a jovem, com apoio da companhia, partiu para a Europa para estudar – fez mestrado e doutorado antes dos 30 anos. “Nunca perdi o vínculo com a empresa”, lembra. Não é à toa que quando voltou ao Brasil, em 2011, Mariana foi contratada pela companhia. Agora, ela ocupa o cargo de engenheira de pesquisa, desenvolvimento e inovação, e acabou trocando de lado, mas sem deixar o ambiente acadêmico. “Uma das minhas funções é orientar os alunos em novos projetos”, diz Mariana, que trabalha no Edifício Alcoa, dentro da UFSCar. “A parceria entre a faculdade e a empresa facilitou muitos processos”, avalia.

A jovem é um exemplo da eficácia das parcerias entre universidades e empresas. Com o déficit de mão de obra especializada, iniciativas desse tipo são essenciais para que as companhias, como a própria Alcoa que mantém 6 mil funcionários no país, continuem a crescer. Afinal, em algumas graduações, como engenharia, o déficit anual (vagas/graduandos) é de 20 mil profissionais. Somado a isso – e para dificultar ainda mais a situação – aparece a concorrência. Segundo uma pesquisa com 16 mil estudantes brasileiros, realizada pela Universum, empresa global em desenvolvimento de marcas de empregadores, as corporações de bens de consumo, bancos e de tecnologia lideram o ranking de preferência dos estudantes e recém-formados. O mercado de alumínio não aparece na lista de desejos dos novos trabalhadores. “Competir por talentos nesse cenário é muito desafiador e requer ações criativas e bem focadas, como temos feito na busca de parcerias com universidades em várias regiões do país”, diz Vânia Akabane, diretora de recursos humanos da Alcoa América Latina e Caribe.

Dentro da UFSCar, o Edifício Alcoa é uma das ações mais bem-sucedidas da empresa. O laboratório foi a primeira parceria com o mundo acadêmico e tem sido referência para estudantes, clientes, fornecedores e pesquisadores desde sua criação, no início da década de 1990. “Desde o começo da parceria com a UFSCar, a Alcoa investiu aproximadamente 5 milhões de reais no projeto”, contabiliza Jorge Gallo, gerente de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Alcoa América Latina e Caribe. Além disso, a parceria já rendeu 20 mestrados, quatro doutorados e 80 estágios curriculares. “Os alunos ganham um contato com o mundo empresarial e a universidade amplia suas fronteiras”, diz o professor Tomaz Ishikawa, do departamento de engenharia de materiais da UFSCar.

Ideias lucrativas
A Alcoa, que faturou 2,6 bilhões de reais em 2012, também mantém o Laboratório de Microestrutura e Ecoeficiência de Materiais do departamento de engenharia de construção civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, além de estar atuando em dez universidades com palestras, oferecendo visitas às fábricas, programas de incentivo, entre outras ações. “Em 2012, o índice de rotatividade da Alcoa no Brasil foi de 9,8%. Esse número está bem abaixo da média do segmento, que foi de 23,1%. Isso também é reflexo do nosso trabalho na base”, diz Vânia.

A falta de profissionais para alavancar o crescimento da empresa também é assunto nas reuniões da Cast, empresa de tecnologia da informação. Recentemente, a empresa captou 30 milhões de reais com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para investir em sua expansão. Mas o que adianta se não houver mão de obra? Por isso, o desenvolvimento dos funcionários é uma das bases para a estratégia de crescimento, uma vez que a empresa pretende dobrar o tamanho da equipe nos próximos dois anos. Atualmente a Cast emprega 2 mil pessoas.

Contudo, o mercado de TI também encontra dificuldade para contratar. Por isso, a companhia resolveu criar uma solução para tentar resolver o problema dentro de casa. A Cast realiza periodicamente treinamento para estagiários de ensino técnico ou graduação na área de TI. “São até seis meses de curso (com remuneração para os selecionados) e 80% dos matriculados são contratados pela empresa”, explica Eliana Oliveira, gerente de recursos humanos da Cast. O programa começou em 2006 e desde então já foram formados cerca de 500 profissionais capacitados nas principais linguagens utilizadas no segmento. Em 2012, o curso – que já era realizado nas unidades da companhia – passou a ser oferecido também em faculdades parceiras. “O curso tem um processo seletivo muito rigoroso porque o setor requer profissionais extremamente competentes”, diz Eliana.

Banco de dados
Em alguns casos, o contato das empresas com as universidades vai além da necessidade de conseguir mão de obra o mais rápido possível. A P&G, empresa de bens de consumo, usa as parcerias para montar todo o seu time de funcionários – composto por 5 mil pessoas no Brasil. Segundo Thaís Simão, gerente de recursos humanos, há muitos anos a empresa pratica a política de “promover de dentro”, ou seja, todos os altos executivos começaram suas carreiras na empresa – muitos deles como estagiários, caso até mesmo do próprio presidente, o executivo pernambucano Alberto Carvalho.

Por isso, as universidades servem como a base de currículos dos funcionários da empresa. Fábio Vigário é um exemplo disso. Ele iniciou a carreira na P&G em 2005, como estagiário, quando cursava engenharia elétrica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Depois de pouco mais de seis anos e algumas promoções, Vigário chegou ao cargo de gerente sênior e líder da área de customer service & logistics da P&G. Hoje, ele se relaciona diretamente com a diretoria de grupos varejistas como Walmart, Carrefour e Grupo Pão de Açúcar. “Mais de 80% dos líderes da P&G Brasil começaram como estagiários e 85% são efetivados após o término do programa”, diz Thaís.

O programa de estágio é o principal canal com as universidades e as parcerias são mais afinadas nos estados onde a empresa possui fábricas (Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus). Para a interação com o mundo acadêmico, a companhia pede que as universidades parceiras cedam espaço para intervenções em suas aulas, convidem executivos da companhia para mesas -redondas e eventos de grande alcance aos alunos. Em contrapartida, a P&G diz que as instituições de ensino têm seus alunos estagiando em uma empresa que realmente investe em desenvolvimento e carreira.

Pequenas no ataque
Não são apenas as multinacionais que buscam estreitar os laços com o universo acadêmico. Empresas de porte menor também já se deram conta de que é essencial caçar talentos nas bancadas universitárias. É o caso da Radix, companhia carioca de engenharia, TI industrial e desenvolvimento de software. Mesmo tendo apenas três anos de existência, ela já mantém parcerias com 35 universidades – seja por meio de patrocínio de equipes ou por cursos e palestras. No ano passado, a empresa participou de 80 eventos acadêmicos no país. Flávio Guimarães, sócio e diretor de operações da Radix, conta que ele e os outros sete fundadores da empresa herdaram a proximidade com as universidades de trabalhos antigos. “A tecnologia nasce na universidade. Sempre foi assim”, diz. “O contato é bom para todas as partes: para os alunos, que têm a chance de ingressar no mercado de trabalho; para as universidades, que podem dar ao aluno a chance de conhecer a realidade do mercado; e para a empresa, que consegue captar talentos”, avalia. Guimarães orgulha-se ao contar sobre o patrocínio de algumas equipes de universitários, como a de Robótica dos alunos da PUC-RJ, que foi campeã mundial no combate de robôs. “A gente se envolve em cada evento, se anima a cada avanço. Fazemos parte do time”, afirma.

No ano passado a empresa investiu 0,5% do seu faturamento nas parcerias com as faculdades – o equivalente a cerca de 1,6 milhão de reais. Além disso, foram contratados 50 estagiários vindos dos programas. A Radix conta atualmente com 280 funcionários e atende empresas como Vale, Petrobras e CSN. Apesar de ser um entusiasta pelo elo com as faculdades, Guimarães admite que os investimentos nas parcerias podem recuar este ano. “A economia está incerta e o mercado reticente. Fica difícil prever o que vem por aí”, lamenta. No ano passado a Radix faturou 30 milhões de reais.

Mudanças à vista
Para o reitor da FEI (Fundação Educacional Inaciana), Fábio do Prado, as parcerias são fundamentais para todos os lados envolvidos. Entretanto, ele acha que é necessário estudar novos formatos para intensificar a eficácia dos projetos. A universidade do ABC Paulista especializada em formação de engenheiros habilita aproximadamente 600 profissionais por ano e mantém cerca de 100 empresas na lista de parcerias, entre elas montadoras de veículos como a General Motors. “Não faz sentido algum ser desconectado do mercado de trabalho”, defende o reitor. A FEI está em processo de revisão curricular e até o fim deste ano vai divulgar sua nova grade de disciplinas. Segundo Prado, a parte teórica continua com um passo muito grande para a formação dos profissionais, mas a parte prática tende a ganhar mais destaque. “Estamos estudando um modelo inédito de parceria.

Queremos estabelecer convênios que possibilitem que o aluno fique em tempo integral na empresa por até um semestre. Não é um estágio e o aluno não vai trabalhar. Seria uma sala de aula, monitorada, em outro lugar: o mundo real. O aluno aprenderia a se integrar ao mercado de trabalho”, explica. Ao que parece empresas e universidades notaram que fazem parte de um mesmo contexto e que a relação é inevitável, além de vital.

 

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