Carreira e Educação

Um branco no reconhecimento

Ricardo Humberto
15 de Maio de 2012
ColorBlind Images / Getty Images

Volta e meia, os cursos de MBA sempre acabam gerando algumas discussões acaloradas. Para muitos, eles são um dos caminhos indicados para um profissional aprimorar seus conhecimentos, ter contato com as melhores práticas de gestão do mercado e, também, fazer networking. Para outros, em função da proliferação desses programas pelo país, nem sempre alguns conseguem entregar o que prometem – o que acaba fazendo com que muitos caiam em descrédito. Agora, a polêmica envolvendo esses programas é outra.

Para entender melhor a história: no Brasil, o curso se enquadra como pós-graduação lato sensu e é oferecido também por instituições não educacionais por meio de credenciamento especial do Ministério da Educação (MEC). Nesse universo estão escolas renomadas por formar grandes líderes empresariais. Porém, desde maio do ano passado, essas escolas de negócio foram descredenciadas graças a uma determinação do próprio MEC. Ou seja, elas não possuem mais o selo do órgão nos certificados. Hoje, a chancela do ministério está restrita aos cursos de pós-graduação ligados a faculdades e universidades que oferecem também cursos de graduação.

A determinação afeta mais de 100 escolas que, apesar de terem sua excelência reconhecida no meio executivo, agora recorrem à Justiça por meio de liminares para assegurar o direito de ter o reconhecimento do ministério. Para intensificar as reivindicações, um grupo dessas escolas integra, agora, a Associação Brasileira das Instituições de Pós-Graduação (ABIPG). Segundo Marcelo Saraceni, presidente da associação e diretor-geral da Escola Superior de Administração (Esad), a resolução do MEC é ilegal, pois vai contra a lei 9.394/96, que coloca os cursos de especialização sob tutela do Poder Público independentemente da natureza da instituição. “O Ministério Público já se manifestou favorável às escolas de pós-graduação em dministração e negócios e reconheceu a necessidade da autorização e fiscalização das instituições especialmente credenciadas pelo Ministério da Educação”, explica. 

Saraceni lembra que houve muito questionamento sobre a resolução, já que os órgãos públicos contemplam promoções ou melhores colocações a quem possui curso de pós-graduação chancelado pelo MEC. “Como a liminar foi favorável à Esad, os alunos não foram prejudicados, pois nos blindamos para garantir a prorrogação do credenciamento pela Justiça Federal até que o ministério volte atrás com a medida”, ressalta. Atualmente, a Esad possui unidades em Brasília e Rio de Janeiro e 60% de seus alunos de MBA são originados de empresas públicas.

A Fundação Dom Cabral é uma das instituições que integra a ABIPG e tem garantido por liminar favorável o direito do selo do ministério. Porém, a gerente coordenadora da pós-graduação da instituição, Silene Magalhães, ressalta que o reconhecimento do MEC não é um fator decisivo para que o aluno opte pela instituição. “O que pesa na escolha do executivo é a excelência de nossos professores e os estudos de caso apresentados”, esclarece. Ela afirma que uma das justificativas apresentadas pelo MEC é a falta de recursos financeiros para fiscalizar a qualidade dos cursos de pós-graduação não educacionais. Uma das saídas apresentadas pela ABIPG, Dom Cabral e outras escolas que compõem a associação é a criação de uma entidade certificadora independente, como ocorre nos EUA. “Nesse modelo, as instituições contribuem com um valor mensal para que essa comissão acompanhe o desempenho da escola”, explica. 

Para Rafael Balan Zappia, diretor acadêmico da Brazilian Business School (BBS), o governo não forneceu tempo hábil para que as escolas se adaptassem, deixando uma lacuna na avaliação das instituições. “Esperamos que o MEC volte atrás e passe a fiscalizar os cursos de pós-graduação”, destaca. Outra medida que garantiria o reconhecimento do curso de extensão pelo Ministério da Educação seria a abertura de programas de graduação, o que levaria aproximadamente três anos para se concretizar. Outro caminho para as instituições, além das liminares por meio de associações, são as parcerias com instituições de ensino que oferecem cursos de graduação. É o caso da Business School que, mesmo fazendo parte da ABIPG, buscou como medida de curto prazo uma parceria com a Estação Business School, que, por possuir cursos de graduação, assegura à escola a chancela do ministério. “Os alunos chegam por indicações de grandes empresas que aqui encontram a proposta acadêmica adequada, e isso independe do MEC. Submetemos a eles todo o processo acadêmico e tudo avaliado em conjunto.” 

Melhor - Gestão de pessoas

O que realmente conta
Quem dá a palavra final num processo de recrutamento e seleção garante que a medida do MEC não interfere na escolha de um candidato. No Grupo Algar, por exemplo, que investe 15 milhões de reais em educação corporativa e tem entre 15% e 20% de seus 250 executivos cursando atualmente MBA, um novo funcionário que ingressar na companhia terá a qualidade da sua pós-graduação avaliada pela atitude, visão e experiência que o executivo possui do mercado. “O MBA importa muito mais para a pessoa do que para a empresa, pois o curso fornece as respostas que o profissional procura e de que o mercado precisa”, explica Cícero Penha, vice-presidente corporativo de Talentos Humanos do Grupo.

A constatação é reforçada pelo gerente-geral de Gente & Gestão de uma empresa do segmento de tecnologia, Nelson Sampaio, que durante dois anos cursou o MBA Executivo da Fundação Dom Cabral. “Todos os processos dos quais participei avaliaram o conteúdo oferecido pela instituição, que é reconhecida no mercado pela qualidade de seus cursos”, ressalta Sampaio. O profissional questiona os modelos dos cursos de graduação que, em sua maioria, não preparam os estudantes para a realidade profissional, diferentemente de cursos de extensão oferecidos por escolas de negócios. “Nesse ponto, as instituições de negócios são soberanas, e não é uma decisão administrativa que fará com que as melhores escolas percam seu diferencial competitivo na formação do capital humano”, enfatiza. Sampaio sugere que as instituições com foco em negócios deveriam receber do MEC incentivos para desenvolverem mais cursos ou, até mesmo, parcerias com instituições de graduação ajudando, assim, a desenvolver conteúdos com olhos para o mercado.

 

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