Gestão

Um novo profissional para um mundo com novas demandas

Carolina Sanchez Miranda
4 de junho de 2013
Getty Images
Quênia – Boa parte da população não tinha acesso aos serviços bancários, mas possuía celular. Isso bastou para Susie Lonie e Nick Hughes, funcionários da Vodafone, criarem o M-Pesa, uma oportunidade de negócio com impacto social: oferecer um serviço que permitisse o acesso a operações bancárias via celular

Um tipo raro de profissional, e bastante valioso para promover inovações, pode não encontrar espaço para atuar na empresa e  passar despercebido pela gestão de talentos. São pessoas que não se sentem realizadas apenas com a recompensa financeira pelo que fazem na organização: desejam, também, gerar valor para a sociedade a partir do trabalho que realizam. Mais do que isso, são capazes de identificar oportunidades de negócios na resolução de problemas sociais e ambientais. São os chamados intraempreendedores sociais.

Um dos casos mais conhecidos é o de Susie Lonie e Nick Hughes, funcionários da Vodafone, que trabalharam no desenvolvimento do M-Pesa. Diante de um cenário no qual boa parte da população do Quênia não tinha acesso aos serviços bancários, mas possuía celular, incluindo os mais pobres das áreas rurais, eles identificaram uma oportunidade de negócio com impacto social: oferecer um serviço que permitisse o acesso a operações bancárias via celular. Depois de um ano de seu lançamento, o M-Pesa já tinha 200 mil clientes e passou a ser usado por instituições de microfinanças para conceder empréstimos e receber pagamentos. Essa iniciativa foi colocada em prática em 2006. Não estamos, portanto, lidando aqui com algo novo ou inédito. Trata-se de um conceito pouco conhecido que, se disseminado e lapidado, pode trazer grandes benefícios para profissionais, empresas e sociedade. O intraempreendedorismo social é capaz de atrair e reter talentos ao mesmo tempo em que alavanca negócios inovadores, que beneficiam a economia e a sociedade.

Desconhecimento
Heiko Spitzeck, professor de ética nos negócios, empreendedorismo social e negócios responsáveis e sustentáveis, da Fundação Dom Cabral (FDC), conta que um estudo realizado pelo Doughty Centre for Corporate Responsibility, da Cranfield University, em cooperação com a consultoria SustainAbility, levantou relatos de mais de 70 intraempreendedores sociais que trabalham pelo mundo afora, em empresas como Accenture, Citigroup, Grupo Nueva, Coca-Cola, Hindustan Unilever e no antigo Banco Real. Como se vê, esse perfil de profissional está presente em empresas de diferentes segmentos e países, inclusive no Brasil. Mas é comum que estejam mudando constantemente de emprego por não encontrarem espaço para desenvolver suas ideias.  Diante do desconhecimento sobre o tema e da falta de programas estruturados para apoiar esses intraempreendedores, Spitzeck e Pablo Handl, do  Hub São Paulo , uniram-se para mapear e reunir essas pessoas periodicamente. “Muitos não se percebiam ainda como intraempreendedores sociais, mas tinham como característica comum uma inquietação em relação ao seu papel na empresa e se sentiam um pouco solitários por não terem com quem compartilhar suas visões no ambiente corporativo”, conta Handl. 

Esse trabalho da FDC e do Hub São Paulo começou em 2011 como um piloto e realiza encontros trimestrais (chamados de “inspiracionais”) com esse grupo. Também foi desenvolvida para eles uma metodologia que os apoia em sua empreitada de tirar seus projetos do papel. Para o professor da FDC, as empresas têm o desafio de desenvolver estratégias e abordagens para apoiar os intraempreendedores sociais a terem novas ideias e levarem essas inovações ao mercado. “Na medida em que as próximas gerações saídas das escolas de administração se tornem mais conscientes da responsabilidade corporativa e da inovação social, as empresas terão mais necessidade de explicar o valor societário de sua existência”. De outro lado, estarão consumidores que exigirão mais do que preços baixos.

São os intraempreendedores sociais os profissionais com visão para descobrir como explorar comercialmente áreas em que pode haver criação de valor para a sociedade e retorno financeiro para a empresa. Também são capazes de encontrar soluções em situações complexas. “Em uma situação como a invasão de terras da empresa, por exemplo, um executivo com essa visão não vai simplesmente mandar a polícia resolver a questão. Vai buscar um diálogo com a comunidade para solucionar o problema”, acrescenta Spitzeck.  Por isso, ele aposta que, no futuro, as pesquisas terão de aprofundar o estudo das razões que levam os intraempreendedores sociais a deixarem as empresas e encontrar soluções para deter essa evasão. “No final das contas, representa perda de oportunidades significativas para as organizações”, avalia.

Um impulso
O desafio A Liga dos Intraempreendedores, lançado em setembro do ano passado, pela comunidade Changemakers, da Ashoka, animou alguns intraempreendedores sociais brasileiros a se apresentarem e mostrarem seus projetos. A iniciativa ainda teve um segundo desdobramento: despertou a atenção das organizações para o tema. “Não teve uma empresa com a qual conversamos até hoje que não demonstrou interesse pelo assunto”, diz Isabela Carvalho, mobilizadora de comunidades, da Ashoka. Entre as iniciativas inscritas, oriundas de diversos países, a de uma brasileira ficou entre as quatro vencedoras, anunciadas em abril deste ano. O case de sucesso é de Aparecida Teixeira de Morais, a Cidinha, como é conhecida, diretora de RH do Tribanco, braço financeiro do Grupo Martins. Como responsável pela área de treinamento, ela percebeu que se instruísse os agentes de crédito da organização sobre o consumo consciente de dinheiro e de crédito, geraria impacto social e ao mesmo tempo benefícios para os negócios. “Isso tem ligação com a perenidade do nosso cliente e a mitigação de risco. Quanto mais ensinamos a consumir bem os recursos financeiros, mais perenizamos e, consequentemente, trabalhamos o risco”, afirma.

Percepção diferente
A ideia, segundo ela, foi inspirada a partir de uma parceria estabelecida com o Instituto Akatu. Mas mesmo o Tribanco fazendo parte de um grupo que tem um histórico de 20 anos promovendo o desenvolvimento do pequeno e médio varejista, por meio da Universidade Martins do Varejo, emplacar o projeto não foi simples. “Algumas pessoas não compreenderam, acharam contrassenso. Por isso, é preciso ser empreendedor mesmo: acreditar, se equipar daquilo que tem à mão para fazer as pessoas entenderem e ir em frente”, diz Cidinha. No final, ela conseguiu ainda apoio da organização e recursos financeiros do IFC, braço financeiro do Banco Mundial para realizar o treinamento. De quebra, ainda contribuiu para criar uma percepção diferente dos agentes de crédito em relação aos clientes e vice-versa. “Propiciou uma relação mais saudável, e um dos atributos pelos quais queremos ser percebidos pelos nossos clientes é o relacionamento”, lembra. O Grupo Martins, assim como a maior parte das organizações, ainda não possui ações sistematizadas de identificação e apoio ao desenvolvimento de ideias de intraempreendedores sociais. Mas certamente esse cenário vai mudar depois do reconhecimento da iniciativa de Cidinha e sua entrada na Liga dos Intraempreendedores Sociais, do Changemakers. Como uma das vencedoras, ela receberá apoio de consultoria do programa de Parcerias de Desenvolvimento da Accenture para impulsionar seus projetos. De acordo com Isabela, o objetivo da Ashoka, em parceria com a Accenture, ao formar a Liga dos Intraempreendedores Sociais – que reúne mais 11 participantes, além dos quatro vencedores do desafio – é criar um movimento global para incentivar o desenvolvimento de ideias como a de Cidinha.

Uma iniciativa estruturada
O valor da contribuição dos intraempreendedores sociais para a inovação nos negócios está muito claro para a GlaxoSmithKline (GSK), que desde 2009 possui um programa que leva profissionais da empresa para trabalharem entre três e seis meses em organizações não governamentais (ONGs) parceiras. Segundo Lucas Sakalem, analista de desenvolvimento de pessoas e gestão de talentos da GSK, o Pulse, como é chamado o programa, foi lançado com total apoio do CEO da empresa, Andrew Witty, e é considerado um programa de desenvolvimento de profissionais.

Em um vídeo institucional, Witty afirma tratar-se de uma iniciativa muito importante para a empresa, que permite aos profissionais darem uma contribuição verdadeira para comunidades no mundo todo. “No processo, não apenas ajudamos as comunidades, mas recebemos de volta uma pessoa diferente, com uma visão de mundo diferente”, diz. Essa nova visão ajuda a empresa a mudar seu modo de pensar também. “Podemos aprender sobre os principais desafios de comunidades no mundo todo e fazer as coisas de uma maneira melhor. Temos a possibilidade de sermos mais focados, mais simples. Esse é o tipo de inspiração que esse programa nos dá.” Sakalem explica que, para participar, o funcionário precisa passar por um processo seletivo. Depois, de acordo com seu perfil, será direcionado a atuar dentro de sua expertise em uma ONG parceira, em seu país de origem ou em outros lugares onde a empresa atua. O profissional recebe o seu salário normalmente enquanto se dedica integralmente à ONG.

No caso de ir para outro país, o custo de deslocamento e de permanência também é coberto pela empresa. Enquanto isso, seu trabalho é redistribuído entre os membros de sua equipe. “Essa redistribuição de tarefas acaba dando oportunidade de desenvolvimento e visibilidade para essas pessoas que passam um tempo com atribuições diferentes”, comenta Sakalem. Vivian Blunk, gerente médica da GSK, participou do programa Pulse e voltou da Argentina em novembro do ano passado, depois de ter passado três meses trabalhando na ONG Mundo Sano. “Minha formação é em medicina. Sempre busquei contribuir socialmente. Fui escoteira durante toda a minha infância e parte da adolescência. Antes de participar do Pulse já tinha sido voluntária em outras atividades de responsabilidade corporativa”, conta.

Ao voltar, foi convidada a participar de um projeto da área de responsabilidade social da GSK, ao qual dedica parte do seu tempo. “Quando as pessoas ajudam outras, elas se sentem bem e ficam estimuladas. Esse estímulo favorece a expansão de horizontes e, consequentemente, a pessoa fica mais receptiva, o pensamento se flexibiliza. Dessa forma, encontrar soluções para problemas ou dificuldades torna-se algo mais fácil”, analisa Vivian. O estímulo, de fato, é tão grande que, nesse meio tempo, ela e mais dois colegas propuseram, ainda, outro projeto de inovação com impacto social, que foi aprovado pela GSK e agora está em andamento. O que mostra que a energia dos intraempreendedores sociais é grande.

Outros caminhos
O exemplo da GSK é raro e, em alguns casos, pode não ser possível criar um terreno fértil para os intraempreendedores sociais. Isso porque o apoio da cúpula da empresa é fundamental – mesmo sem unanimidade – para que os projetos de inovação social se concretizem. De acordo com Spitzeck, da FDC, as fundações corporativas podem mudar seu papel e agir também como capitalistas de risco social para projetos internos, dedicando recursos financeiros e tempo para pesquisar as necessidades emergentes que existem do lado de fora da empresa. E é dessa forma que o Instituto Walmart vem atuando.

Em 2010, ele criou a Escola Social do Varejo, conectando a necessidade de qualificação profissional dos jovens de baixa renda que saem do ensino médio, com a demanda por mão de obra preparada nesse setor. O programa, desenvolvido em parceria com o Instituto Aliança e secretarias estaduais de Educação, é realizado em cidades do Nordeste e Sudeste, onde as empresas do grupo Walmart atuam. “Foi necessário bastante intraempreendedorismo para esse programa evoluir. Precisamos comunicar, envolver as áreas, trabalhar de perto”, conta Paulo Mindlin, diretor do Instituto Walmart. Isso porque, além de conquistar a cúpula da empresa, era preciso conseguir apoio de funcionários de todos os níveis da organização.

Desde executivos que dão palestras contando sobre sua experiência profissional no varejo para inspirar os jovens, passando pelo RH, que seleciona esses jovens para novas vagas, até os profissionais que atuam nas lojas, que recebem os ex-alunos em sua primeira oportunidade de emprego. “Não foi uma decisão do presidente. Ao contrário, não estava na agenda dos primeiros executivos. Mas pela insistência para que conhecessem, por sua consistência e pela qualidade na execução, o programa os encantou”, lembra Mindlin. “Foi necessário conquistar as mentes e os corações para que entendessem que não se tratava de um programa social, mas de um programa de valor compartilhado”, ressalta.  Mindlin é um profissional que teve clareza, desde o início de sua carreira, de que desejava atuar como um intraempreendedor social. “Se eu quero melhorar o mundo, quero fazer isso por dentro das estruturas que fazem esse mundo funcionar”, explica. Seu esforço tem dado resultados e ultrapassado os muros da empresa. No ano passado, a Fundação Walmart aprovou a replicação do programa – Escola Social do Varejo – em outros países onde o Walmart está presente. Além disso, o programa foi reconhecido no Fórum Econômico Mundial como boa prática global.



Um Nobel da Paz dentro da empresa
O conceito de empreendedorismo social passou a ficar mais conhecido em 2006 quando o economista Muhammad Yunus recebeu o Prêmio Nobel da Paz por ter criado o Grameen Bank. Concedendo microcrédito à população de baixa renda de Bangladesh que não teria acesso a recursos financeiros nos bancos tradicionais, Yunus ajudou milhões de pessoas a saírem da pobreza. “Para enfrentar os desafios globais, os empreendedores sociais precisam primeiro construir a infraestrutura necessária e implantá-la em suas organizações. A vantagem dos intraempreendedores  sociais – ou ´Yunus dentro da empresa´ – é que a corporação já tem a capacidade e a infraestrutura necessárias. Eles precisam apenas saber usá-las”, explica Heiko Spitzeck, da Fundação Dom Cabral. “Portanto, os intraempreendedores sociais também podem ser considerados inovadores que aplicam os princípios do empreendedorismo social – mas a partir das grandes empresas”, completa.

Segundo ele, as origens do conceito de intraempreendedorismo social remontam a um artigo de Norman Macrae – A revolução empreendedora que está por vir – publicado em 1976 pela revista The Economist. A proposta do texto era incentivar a inovação dentro das organizações, que atuariam como centros de intraempreendedorismo social e agregação de valores competitivos e lucrativos. Alguns anos mais tarde, a palavra intraempreendedor foi incluída no American Heritage Dictionary, depois de Gifford Pinchot ter publicado um livro sobre o tema. Mais recentemente, uma nova espécie de intraempreendedor foi descrita pela consultoria britânica SustainAbility, como profissionais que são motivados não apenas pelo sucesso nos negócios, mas também pelo impacto que causam na sociedade. Aquelas pessoas cuja produtividade não é influenciada pela recompensa financeira, mas sim pela possibilidade de realizar uma transformação positiva no mundo.

 

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