Um país de cópias

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    O Donnell, do Instituto Vivendo Valores: a essência da competitividade é a meritocracia

    Ainda precisamos dar um salto de inovação, caso contrário continuaremos a ser um país exportador de produtos primários, condenado a ser mais uma vítima dos altos e baixos dos mercados globais. A avaliação do presidente do Instituto Vivendo Valores, Ken O´Donnell, pode parecer uma crítica pesada. E é. Se não mudarmos esse quadro, continuaremos a ser um país de cópias, como ele diz. Para tanto, é preciso tirar o tema do discurso e transformá-lo em realidade nas empresas – o que demanda uma visão sistêmica, um ambiente que permita a liberdade de expressão, uma estrutura que permita a rapidez no fluxo de comunicação e processos, e um trabalho profundo nos indivíduos para desenvolver a intuição e a criatividade.

    Quando se fala em inovação, quais desafios o Brasil enfrenta?
    No Brasil, a inovação tem de se converter na principal ferramenta para enfrentarmos uma economia cada vez mais globalizada e, portanto, altamente competitiva. Nosso desafio real é aumentar a competitividade do país em relação às economias emergentes – como a China e a Índia – e o espírito combativo de nações desenvolvidas como EUA e Alemanha, por exemplo. Por isso, o momento exige uma revisão radical e profunda sobre como temos tratado a inovação. A inovação praticamente não faz parte do DNA das empresas brasileiras. É certo que existem algumas exceções, principalmente no meio de grandes companhias da área de tecnologia. Temos sido, em essência, um país de cópias. Nossa competitividade sistêmica é muito baixa. O mundo acadêmico e as políticas públicas andam desconectados da relevância dos desafios relatados acima.

    Ou seja, o Brasil precisa de um salto de inovação.
    Sim, caso contrário continuaremos a ser um exportador de produtos primários, condenados a ser mais uma vítima dos altos e baixos dos mercados globais. Desconsiderar o poder da inovação significa limitar a potencialidade do país de crescer.

    Para muitas empresas, inovação refere-se apenas a produtos. Essa é uma visão míope?
    Sem dúvida. Também inclui metodologias, tecnologias, processos, gestão e pesquisa. Dessa forma, podemos inovar no sistema político, nos modelos de gestão e em tantos outros campos. Inovação é derivada do saber, e só acontece por meio da ação de pessoas e de capital. A inovação incorpora emoção, tipicamente pelo design ou pela percepção e apreciação de uma marca ou de uma iniciativa. É tudo que agrega valor, que o cliente percebe e paga por isto.

    Se tivermos que priorizar algum setor, qual seria?
    Educação. A educação no Brasil – desde a educação básica, passando pela tecnológica e superior – está longe de produzir uma força de trabalho de classe mundial, tão necessária à incorporação de inovação no seio da nação como a forma de fazer negócios.  Isso começa pela ignorância sobre o que é e como fazer a inovação. A falta de alinhamento entre as escolas e as empresas dificulta esse aspecto.

    Existe algum inimigo da inovação no mundo corporativo?
    A prática nacional de proteger interesses econômicos e políticos, estabelecida numa outra época, é um dos principais inimigos da competitividade da indústria brasileira. A essência da competitividade é a meritocracia. Se realmente quisermos levantar essa bandeira, precisamos introduzir as melhores práticas de desenvolvimento e desempenho profissional em todas as instâncias de comando – tanto no setor privado, onde já é praticado, quanto no setor público.

    Depois desse inimigo, quais seriam os deslizes das empresas?
    Um dos erros típicos da correria em direção à inovação é tentar fazer tudo. Por isso, cada empresa tem de focar aquilo que pode em termos de sustentabilidade: vantagens comparativas; gestão de conhecimento; práticas de gestão; e recursos humanos.

    Mais algum outro?
    Frequentemente, a palavra ´inovação´ aparece nos planos estratégicos das empresas como um dos valores imprescindíveis, mas pouco se faz para que isso seja uma realidade. Não se cria inovação sem que haja quatro fatores principais: visão sistêmica; ambiente que permite a liberdade de expressão; estrutura que permite a rapidez no fluxo de comunicação e processos; trabalho profundo nos indivíduos para desenvolver a intuição e a criatividade. Ou seja, para a inovação, em primeiro lugar, é necessário difundir uma visão sistêmica de todo o processo de uma organização dentro e fora dela, pois isso traz novas percepções. 

    Em alguns casos, é o próprio ambiente organizacional que limita a inovação.
    Obedecer regras cegamente mata a criatividade e, portanto, a inovação. Quando as pessoas sentem-se à vontade para se expressar, geram ideias. A estrutura, inclusive física, deve favorecer a agilidade na criação e sustentação de boas ideias. Elas devem ganhar sempre, e não os grandes egos. As capacidades de refletir e questionar, muitas vezes, bloqueadas por medo e insegurança, tornam-se a base da criatividade. A intuição pode florescer nesse cenário.

    Voltando à visão sistêmica, tudo afeta tudo, não?
    Sim. Qualquer mudança positiva ou negativa nos sistemas, estruturas, tecnologias ou pessoas influencia os demais aspectos na mesma proporção. Não adianta querer um esquema de tecnologia de ponta se a estrutura organizacional é demasiadamente centralizada, com uma hierarquia antiquada, ou se os sistemas não recompensam intelectual, emocional ou financeiramente os funcionários, ou se as pessoas não conseguem se adaptar às mudanças na organização ou no mercado, ou se o estilo de liderança desestimula a cooperação das equipes.

    É possível falar em inovação no nível pessoal?
    No nível individual, a auto-reinvenção é um processo importante. Como indivíduos, precisamos alinhar-nos de uma maneira nova nos nossos relacionamentos, valores, habilidades e estratégias de vida. Hoje em dia, há tanta atenção em definir a missão e objetivos da organização, que eles acabam funcionando como uma bússola para dar um rumo. Da mesma forma, para sermos coerentes aos princípios sistêmicos, é necessário fazer a mesma reflexão para o ser humano que faz parte da organização. Afinal, como uma organização conseguiria encontrar um novo caminho se é composta de um grupo de indivíduos perdidos em relação a si mesmos, pensando do mesmo jeito que sempre pensaram?

    Ken O´Donnell irá fazer a palestra Valores humanos no trabalho: da criatividade à inovação no III Congresso Mato-grossense sobre Gestão de Pessoas (Comagep 2009), realizado pela ABRH-MT entre os dias 17 e 19 de novembro, no Centro de Eventos do Pantanal.

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