Um pouco de tudo

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Adriano Vizoni
Eleonora, da Sertrading: os dois perfis são importantes. O generalista traz novas ideias e o especialista responde às necessidades do dia a dia

Ainda que o mercado de trabalho tenha dado sinais de desaceleração das contratações, verificado no fim do ano passado, a guerra pelos melhores profissionais parece não ter data para terminar. E nessa batalha em busca de talentos, há perfis e características que sobressaem e são os mais desejados pelas companhias. Considerando aspectos gerais, há dois tipos de profissionais que circulam no mercado: os generalistas e especialistas. Até pouco tempo, as companhias imaginavam que suas necessidades pudessem ser supridas por um ou outro perfil. Contudo, diante da complexidade das funções e dos processos, ambos passaram a ter papéis estratégicos e não há preferências claras no mercado. Apesar disso, especialistas afirmam que a tendência é buscar e desenvolver características mais generalistas, tendo em vista a carência por pessoal com capacidade de gerir. “As empresas não esperam mais profissionais que possam ser classificados. Elas querem aqueles que conseguem se adequar às necessidades, que não sejam especialistas em tudo e que tenham uma visão ampla do negócio”, afirma Ana Paula Cardoso, coordenadora da área de Educação Executiva do Insper.

Focado, técnico e estratégico, o profissional especialista é aquele que direcionou a carreira em uma área. “Ele geralmente está em posições que exigem conhecimento e expertise em uma única posição”, avalia Aline Zimermann, sócia da Fesa, empresa de recrutamento executivo. Já o generalista é o executivo mais sênior, com experiências em diversas funções e posições. “Ele tem uma visão geral do modelo de negócios e consegue ter opiniões consistentes e diversificadas”, explica Aline. “É difícil você ter uma visão generalista sem muita vivência profissional”, completa. O publicitário Fábio Vianna se considera generalista. Ao longo de sua carreira, passou por várias funções na área de planejamento e atendimento. Hoje, o diretor de planejamento da Arpoador Sports & Marketing, empresa de marketing esportivo, acredita que a trajetória o ajudou a ser um gestor melhor. “Com experiências diversas, consigo ter uma visão mais ampla do que está acontecendo e enxergar cenários diferentes dentro de uma mesma função”, conta. Ter passado por diversos cargos, diz, também o ajuda a avaliar se o trabalho da equipe está benfeito e se os prazos estão condizentes. 

Vianna já passou por cinco empresas de sua área de atuação e, apesar das vantagens que enxerga em ter um perfil generalista, ele percebe que o mercado ainda busca por profissionais mais especialistas. “Ao menos em grandes empresas, acredito que a procura maior é por especialistas. Em pequenas e médias, há uma maior procura por generalistas”, diz. O que Vianna vê na prática tem sentido teórico. Grandes empresas tendem a segmentar mais os processos ao passo que companhias menores precisam de um quadro mais multitarefa.

Liderança
“Os dois perfis são importantes para as empresas”, afirma Fabio Saad, gerente sênior das divisões de mercado financeiro e finanças e contabilidade da Robert Half, empresa de recrutamento. “Mas percebemos que quanto mais a pessoa sobe na carreira, maior é o conhecimento que ela precisa de outras áreas”, diz. Para ele, mais que a demanda por um ou outro perfil, é a capacidade de liderança que movimenta o mercado.

Na prática
E essa característica, acredita Glaucy Bocci, gerente e líder da prática de liderança e talentos do Hay Group América Latina, é mais fácil de ser desenvolvida em profissionais com características mais generalistas. “Especialistas são mais focados e racionais e essa é uma característica que pode atrapalhar no processo de liderança, mas não é uma regra”, afirma. “Os generalistas têm uma perspectiva mais ampla, o que facilita a gestão”, completa.  Apesar disso, ter um mix dos dois perfis tanto na equipe quanto na liderança amplia as perspectivas de soluções do negócio. “Essa diversidade traz ganhos, porque há complemento de competências”, avalia Glaucy. É esse mix que Eleonora Spínola Ferreira, gestora de RH e Marketing da Sertrading, empresa de comércio exterior, busca para o quadro da empresa.

Antes de fazer a seleção, Eleonora avalia o perfil do candidato que espera ter no quadro. Dependendo da vaga, busca um profissional mais generalista ou mais especialista. “Os dois perfis são importantes para nós. O generalista terá de trazer novas ideias sem ter um foco específico e o especialista terá de responder às necessidades do dia a dia”, conta. Mesmo ao buscar um técnico, a executiva considera características mais generalistas para a função, principalmente para cargos de gestão. Foi o que ocorreu quando contratou Luiz Vieira para o cargo de gerente fiscal da companhia. Com 11 anos de experiência na área tributária, o advogado se considera um especialista, mas soube desenvolver características generalistas, como visão sistêmica e liderança. “Quando você sobe, você trabalha a parte de liderança”, diz. Para ajudar a desenvolver um perfil de gestão, Vieira também fez coaching.

Liderança
Ao contrário do que se imagina, no entanto, o executivo não acredita que o perfil mais especialista tenha atrapalhado a desenvolver liderança. “Seguir uma carreira focada em um segmento específico fez com que eu tivesse um bom desenvolvimento, com retorno e conhecimento técnico maior. E o foco não é mudar esse direcionamento”, destaca. Anderson Godinho, gerente de processos, qualidade e TI da Ventana Serra do Brasil, empresa de logística, também considera ter perfil mais generalista, apesar da formação em tecnologia de logística. Sua rotina de trabalho envolve conhecimentos muito específicos de sua área. O trânsito em vários departamentos e empresas ao longo da carreira, no entanto, foi fator que fez com que ele conseguisse desdobrar os conhecimentos que tem para gerir. “Sempre fui muito curioso e gosto de entender a rotina e o fluxo do trabalho. A partir disso, dá para começar a enxergar os planejamentos a médio e longo prazo”, conta.

Afora a formação mais técnica, Godinho se considera um profissional mais generalista, justamente por conta da experiência que tem e da facilidade de se relacionar com pessoas – uma das habilidades mais demandadas pelo mercado. Esse mix de competências, acredita, permite um melhor desempenho de sua função. “A visão ampla do negócio me permite fazer uma abordagem comercial mais eficaz, por entender o que o cliente quer. Com certeza, faz diferença para o meu papel como líder”, avalia. Para Aline, da Fesa, a experiência em várias empresas é importante para o desenvolvimento de características mais generalistas. “Quanto mais alta a sua posição, mais forte deve ser sua visão generalista de toda a operação. E ter vivência em várias áreas faz muita diferença em posições de liderança”, enfatiza. 

Independentemente do perfil, as companhias hoje estão mais interessadas na capacidade de execução e de resolução de conflitos dos profissionais, como avalia Saad, da Robert Half. “As empresas buscam profissionais capazes de enfrentar problemas que nunca tiveram antes e que consigam solucionar com base nas experiências que têm”, diz.


Perfil é considerado por instituições de educação executiva
Não importa qual perfil é o mais demandado pelo mercado. As instituições de educação executiva levam em conta tais demandas ao programar cursos direcionados às empresas. “Sem dúvida, essas questões são levadas em conta. E o fato de algumas disciplinas serem obrigatórias já é uma resposta de uma demanda que vem do mercado”, afirma Ana Luisa Pliopas, coordenadora de estágios e colocação profissional da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP). 

De acordo com ela, as escolas são direcionadas pelo mercado quando preparam os cursos de formação executiva. Diante dessa demanda, ela verifica que há procura maior pelo desenvolvimento de habilidades mais generalistas. “As empresas esperam que os profissionais tragam soluções que ninguém mais conseguiu pensar”, avalia. “A convivência dos especialistas com generalistas é o que as empresas buscam. Ela é essencial para o desenvolvimento dos negócios, independentemente do setor”, afirma Ana Paula Cardoso, coordenadora da área de educação executiva do Insper. A escola também considera os desejos do mercado ao formar os programas oferecidos aos executivos. “Os programas estão em linha com os objetivos e com o momento das empresas”, afirma. As demandas são verificadas por meio de conversas com as empresas, alunos e pesquisas.

 

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