Uma nova largada

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Gary Prior / Getty images

Semanas intensivas de treinamento, de revisões das práticas a serem aplicadas no projeto e de trabalho em grupo. A vitória parecia certa, mas quando a equipe foi a campo, acabou surpreendida por um imprevisto, e a expectativa de um resultado positivo foi substituída pela certeza do fracasso.  Foi preciso recomeçar o processo e se preparar novamente para a competição.

A narrativa acima pode tanto descrever uma cena cotidiana de uma empresa ou uma partida de vôlei, certo? Foi pensando nessas semelhanças entre o mundo corporativo e o mundo dos esportes que a Adecco criou o Programa de Transição de Carreira de Atletas de Alto Rendimento, que vem ajudando milhares de atletas no mundo inteiro a desenvolverem uma carreira no mercado de trabalho após uma vida dedicada aos esportes. A iniciativa, que começou em 2005, vem colhendo bons resultados, principalmente porque as habilidades e competências presentes nas práticas esportivas são muito valiosas no dia a dia das corporações. No Brasil, o projeto ainda não tem data para ser implantado, mas cerca de 10 mil atletas já participam do programa, em mais de 100 países. “Esse programa surgiu da consciência acerca da dificuldade de integração no mercado de trabalho de atletas de esportes de alto rendimento, após o término de sua carreira esportiva”, explica o vice-presidente e Chief Financial Officer (CFO) para América Latina e Brasil da Adecco, Paulo Canôa. “Percebemos que muitas das características que hoje em dia são exigidas dos colaboradores de uma empresa são exatamente aquelas que os atletas de alto rendimento apresentam.” Aliás, o executivo, de 42 anos, entende bem do assunto – ele jogou basquete profissional em Portugal, além de ter atuado como organizador de eventos esportivos antes de assumir o cargo no grupo de recursos humanos, cuja matriz é em Zurique, na Suíça.

Para ajudar atletas e ex-atletas a identificarem seus pontos fortes e suas fragilidades, mostrando a eles que habilidades podem ser aproveitadas no mercado de trabalho, o programa promove desde orientação para elaboração de currículo, preparação para entrevistas de recrutamento até o coaching individual na busca ativa de emprego. Em geral, o processo tem início ainda na fase ativa do atleta. “A preparação deve começar durante a fase competitiva. Ele próprio e todas as pessoas que estão ao seu redor, como treinadores, dirigentes esportivos, ex-atletas e familiares precisam ter a consciência de que a alta performance e o desempenho esportivo não são eternos”, ressalta Canôa.  Uma importante etapa do programa são os seminários, nos quais o atleta e ex-atleta recebem o que o executivo da Adecco chama de “formação essencial”: durante os encontros, eles identificam e aprendem a utilizar as capacidades desenvolvidas no mundo esportivo em uma carreira corporativa; reconhecem seus pontos fortes e suas fragilidades; discutem seus interesses pessoais; avaliam suas preferências nas áreas de trabalho; e melhoram a capacidade de comunicação oral e escrita. Após essa fase, eles são acompanhados individualmente por consultores especializados  da Adecco para a fase ativa de busca de emprego e colocação profissional. 

Entre as características inerentes a um atleta e valorizadas pelo ambiente corporativo, o executivo cita a orientação para resultados, a gestão adequada da pressão e do estresse, o pensamento estratégico, a facilidade para o trabalho em equipe, o espírito competitivo, a dedicação, a constante busca pela perfeição, as habilidades de liderança, entre outras. “Por meio de palestras, conferências, seminários e visitas de grupos de atletas a empresas, evidenciamos e relembramos todas essas características e como elas são fundamentais no sucesso das empresas. O que dizemos repetitivamente é: ´da próxima vez que pensar em recrutar alguém, por que não incluir atletas no conjunto de candidatos?´”, comenta Canôa.


Mais resiliente
O alemão Kim Lachmann, de 24 anos, foi ciclista de rua por dez anos, dos quais três como atleta profissional, e hoje trabalha na Deloitte, no departamento de seguros

“Sempre quis ter a possibilidade de fazer essa transição dos esportes para o mundo corporativo, o que pode ser mais bem descrito como uma estratégia de ´back up´. Ela sempre me deu a segurança de que eu não ficaria dependente da vida de atleta. No esporte, muitas coisas podem acontecer com você de um dia para o outro, você pode se machucar. Foi por isso que, após terminar o colégio, decidi iniciar esse curso na Universidade de Ciências Aplicadas em Ansbach, Alemanha. Com o esporte, você aprende a se adaptar a todo tipo de pessoa com quem tem de lidar em seu grupo ou ambiente. Nesse sentido, uma equipe esportiva é como uma equipe de negócios. Aprendi também com o ciclismo algumas habilidades como resistência (endurance), e sei fazer um exercício rápido para controlar o nível de estresse.

Para ser honesto, tive alguma dificuldade para começar a sentar o dia todo no escritório e me focar no trabalho. Antes de começar a atuar no mundo corporativo, eu passava o dia treinando, por sucessivas horas, mas aí passei a ficar o dia todo sentado na frente do laptop, com um mínimo de movimento. Essa foi uma mudança difícil. Mas com o esporte aprendi algo que se tornou cada vez mais e mais óbvio: se você realmente quer que uma coisa aconteça, você tem de trabalhar para conquistá-la. Em minha opinião, esse é o maior aprendizado que tive com a minha carreira esportiva”. 


Preparado para desafios
O americano Keeth Smart, 34 anos, foi esgrimista por 20 anos, vencedor de uma medalha de prata em 2008, e é atualmente funcionário do Banco Merrill Lynch no departamento de aposentadoria

“Sempre soube que em certo momento minha carreira chegaria ao fim, e eu queria estar preparado para isso. As habilidades mais importantes que eu aprendi com os esportes e que podem ser aplicadas no mundo corporativo são: disciplina, trabalho duro e tenacidade, capacidade de trabalho em equipe, e como superar dificuldades. A vida nunca será perfeita, e o esporte é cheio de altos e baixos. O fato de ser um atleta me preparou para os desafios que eu encontraria no ambiente organizacional.

Foi difícil sair de uma rotina de treinamento intensivo diário, pensando no que comer, e em levantar peso, para um dia a dia em que não há ninguém me dizendo o que devo fazer. Inicialmente, foi difícil entender que não teria mais um treinador para me dizer o que deveria fazer, mas acabei me adaptando e lembrando a mim mesmo que se eu posso ter sucesso em uma competição esportiva, posso ser um vencedor no mundo corporativo”. 

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