Gestão

Uma nova liderança

Assim como na Odisseia, o papel do líder é alinhar propósitos em busca de resultados extraordinários

de Redação em 27 de abril de 2018
Sergio Piza

A liderança precisa construir um espaço para que todos os atores organizacionais possam se automotivar e se tornar autores de resultados extraordinários. É o que afirma Sergio Piza, diretor de gente e gestão da Klabin e conselheiro da consultoria Simbiose. Com mais de 30 anos de carreira, vividos sempre na área de recursos humanos, no Brasil e nos EUA, e autor do recém-lançado O enigma da liderança (Editora Évora), seu primeiro livro, Piza
analisa os enigmas para a construção de um líder e sua plena atuação, valorizando o papel do gestor de pessoas e o colocando como o grande responsável por criar um ambiente e as condições para que os profissionais possam exercer seu poder de escolha, construir suas respectivas carreiras e contribuir de forma eficaz para o atingimento de metas.

Falar de liderança é também falar da história do ser humano. A necessidade de alguém conduzir um grupo e da hierarquia, decorrente, sempre estiveram presentes?

Sergio Piza

Sergio Piza

Antes de ser um animal político, somos um ser social. Organizamo-nos para viabilizar a cooperação. Somos interdependentes para conseguirmos viver. Num dado espaço e tempo, as pessoas realizam uma série de atividades, que, de acordo com um determinado plano, serão interligadas. Um planta e colhe o trigo, outro transforma o grão em farinha e alguém assa e vende o pão e quem trabalha em escritório tem o pão à disposição. Como toda forma de coadjuvação exige a divisão das atividades e, depois a integração das operações, a liderança se faz necessária e surge a hierarquia.

Nessa evolução, que fatores entraram na equação entre liderança e hierarquia?

Ao longo da história, esse processo natural de cooperação tornou-se mais complexo com o objetivo de aumentar a produtividade. A partir da Revolução Industrial, evoluímos da manufatura para a mecanização, e agora chegamos à automação da produção. Como resultado, cresceram a fragmentação e a diversificação das atividades, com multiplicidade de cargos e serviços, hierarquização das funções, diferenciação de salários, divisão de competências e concentração da autoridade e do processo decisório em lideranças relativamente distantes da operação. Em volta dessa complexa megaestrutura,
as relações sociais e interpessoais também ficaram mais complexas. Nesse contexto, entender o próprio papel nas organizações não é básico. Produz-se uma parte de quê? Trabalha-se de acordo com qual plano? Ao que parece, as promessas embutidas nesse processo “evolutivo” da cooperação não estão se cumprindo tanto quanto se esperava: não queríamos aumentar a produtividade para gerar mais excedente (riqueza) e ter mais tempo livre? Mas a crença exagerada no avanço tecnológico não nos trouxe a felicidade no
trabalho. Em vez disso, a excessiva complexidade e a fragmentação das atividades estão nos deixando cada vez mais desmotivados. Em um mundo velozmente mutante – em que copiar é cada vez mais simples e as mais “sólidas” vantagens competitivas se desmancham no ar –, a inovação contínua e o constante aumento da produtividade é que fazem a diferença. É aqui que chegamos ao ponto-chave: sem motivação, a equação não se resolve; a inovação e a produtividade mantêm-se limitadas.

Você fala do enigma da liderança. Qual é esse enigma?

Édipo decifrou o enigma da esfinge e demonstrou assim a importância de buscar de onde viemos, por que estamos aqui e para aonde vamos. Assim como no mito de Sófocles, o papel do líder é decodificar e concatenar as alavancas do negócio de maneira que traga significado para todos os envolvidos: acionistas; investidores; clientes; comunidades;
sociedade; ambiente. Para chegar a Ítaca, Ulisses lutou com toda sorte de obstáculos e não caiu no canto da sereia. Assim como na Odisseia, o papel do líder é alinhar propósitos em busca de resultados extraordinários; ele deve, com habilidade, criar um contexto para que
as pessoas consigam se automotivar e se empoderar. Ninguém motiva ninguém; ninguém empodera ninguém. As pessoas se automotivam e escolhem assumir a responsabilidade pelos seus atos quando sentem que o trabalho faz sentido. Cada atividade diária é significativa se estiver em sintonia com planos pessoais, aqueles que dizem respeito a nossa essência.

Como conseguir esse alinhamento?

O líder é primordial para desvendar caminhos em um sistema complexo. As relações interpessoais embrenham-se com os processos de tomada de decisão e com as questões
do negócio e o líder assegura o alinhamento para que o grupo caminhe junto sob um mesmo traçado e na mesma direção. O líder precisa, sobretudo, saber ouvir, sem julgar, sem concordar nem discordar, apenas criando condições para que a conversa progrida “piramidando ideias”. O líder ouve de verdade, o interlocutor fala sem medo e assim se estabelece a confiança, as ideias afloram e só assim pode surgir algo extraordinariamente
inovador.

A que outros papéis o líder também deve prestar atenção?

O líder tem também o papel de educador. Ele contribui para que cada pessoa assuma a sua autonomia e tenha uma atitude consciente diante do trabalho; saiba o que faz, por que faz e veja sua “assinatura” no produto ou serviço e também no resultado final da organização. É nesse ponto que os objetivos pessoais coincidem com as metas estratégicas da empresa. Dessa forma, o líder promove o engajamento, elevando o interesse pelo conteúdo do trabalho, o orgulho pelo que se faz e o reconhecimento dos méritos na cooperação relevante, inclusive, para a sociedade como um todo. A motivação é renovada e há aquele
esforço discricionário consciente para ir além e fazer mais e melhor. É assim que o líder consegue, além de incentivar a inovação, chegar a ganhos de eficiência e produtividade,
ou seja, atingir resultados extraordinários sustentavelmente.

Haja inteligência emocional para ele, então…

Sim, e o líder concilia inteligência emocional com a visão estratégica de negócios. Dá, dessa forma, sustentação às mais profundas, consistentes e duradouras transformações
na estrutura e na cultura organizacionais, em busca de construir uma empresa extraordinária. O líder deve ser capaz de oferecer ao time o contexto e desenvolver o modelo de negócio capaz de instigar a motivação, o aprendizado contínuo, a inovação e o aumento da produtividade.

O autoconhecimento é o principal ponto de partida de uma carreira?

Tanto da carreira como de uma vida mais plena e serena. O trabalho diário é apenas uma das dimensões. Cada um de nós é mais do que o seu trabalho diário, embora a insatisfação profissional cause ansiedade. Você faz suas escolhas e suas escolhas fazem quem você é.
Daí a importância de um processo de reflexões pragmáticas para que suas escolhas de vida e carreira estejam em harmonia com sua essência e, ao mesmo tempo, levem aos melhores resultados para sua realização pessoal. É preciso que a prática diária esteja em sintonia com valores. Por meio de relações de confiança, o líder cria um ciclo virtuoso: aprender com os outros (cuidar e se deixar cuidar); realizar (tornar realidade o aprendido); e retribuir, compartilhando o aprendizado e seus benefícios.

Em meio a essa transformação digital por que as empresas passam e em relação aos papéis que se espera do líder, deve-se, então, buscar uma espécie de super-homem?

A redefinição, ou ressignificação, do papel do líder é crucial para os novos tempos digitais. A capacidade de adaptação é a regra para a sobrevivência das empresas. A adaptação
pressupõe um ambiente reflexivo, em que o papel do líder de construir um espaço fundamentado na confiança permite conversas poderosas, capazes de prototipar soluções para um mundo complexo. Não se trata de um líder inspirador, estrategista, sobre-humano. Trata-se de um líder que cria contextos que tenham lógica para o crescimento sustentável do negócio e, para tanto, que tragam sentido para todos os atores. Atores de seu destino e, portanto, autores de resultados extraordinários.

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