Vales de plástico

Vanderlei Abreu
18 de dezembro de 2009
Neiva, da Visa Vale: preocupação com segurança

Comodidade. Essa é uma das palavras-chave por trás da estratégia de empresas do setor de benefícios ao apostarem nos cartões como principais veículos de itens como refeição, alimentação, produtos natalinos e culturais. Comodidade para o trabalhador e para o RH: imagine quanto um funcionário perdia do valor benefício-refeição com o sumiço dos famigerados contravales, muitos anotados em pedaços toscos de papel, que desapareciam misteriosamente de carteiras, bolsas e mesas de escritórios. Para cada estabelecimento, um tipo era oferecido. Ao final de um mês, era necessária uma força-tarefa para recolher esses pedaços de papel. E imagine também ter de andar pela empresa com um monte de vouchers para serem distribuídos aos colaboradores; com a tecnologia dos cartões, a recarga é feita pelo próprio funcionário.

A mudança dos talões de papel para os cartões animou as empresas desse setor: o que começou na seara do PAT (Programa de Alimentação do Trabalhador), agora se estende para outras praias e programas, como o de Cultura do Trabalhador (PCT). E se depender do mercado potencial a ser atendido pelo primeiro (PAT), o novo programa promete aquecer ainda mais o setor de benefícios. Se não, vejamos: de acordo com dados do Ministério do Trabalho, o PAT atende 12,2 milhões de trabalhadores e movimentou 18 bilhões de reais em 2008, podendo chegar a 20 bilhões de reais este ano, segundo expectativa de Arthur Almeida, diretor-presidente da Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador (Assert). Comparado com o número de pessoas da população economicamente ativa (PEA) – que, em 2004, para se ter uma ideia, era de 92,9 milhões de brasileiros (mas com 84,6 milhões empregados) -, é possível imaginar o quanto esse mercado pode crescer.

No caso do vale-cultura, que ainda tramita no Congresso, e que pretende oferecer valores
de 50 reais mensais para trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos, estima-se que ele injete cerca de 800 milhões de reais no segmento cultural e atenda uma população tão grande quanto a do PAT.

Complementares
O primeiro benefício complementar oferecido pelas operadoras foi o cartão-alimentação de Natal. A Ticket foi uma das precursoras dessa ação, em 2001, ao estimular os clientes a fazerem um crédito adicional no vale-supermercado na época de fim de ano. “Em 2008, conversando com as empresas, chegamos à conclusão de que elas precisavam tangibilizar melhor esse reconhecimento especial. Hoje, oferecemos aos trabalhadores um produto muito parecido com o cartão regular, mas com os ícones do Natal e que vai dentro de um kit específico e especial”, esclarece Maximiliano Fernandes, gerente de marketing e produtos da companhia.

Atualmente, as principais operadoras do sistema de benefício-convênio também oferecem outras modalidades de benefícios, em cartão ou voucher, como vale-presente, que pode ser utilizado em várias datas especiais; vale-brinquedo, destinado aos filhos dos funcionários; vale-combustível, em substituição ao tradicional reembolso de despesas, e algumas operadoras já estão em fase de lançamento do vale-cultura. Mas o grande destaque, ainda, é o de Natal, que substitui a tradicional cesta natalina. “As pessoas tinham dificuldade de transportá-la e nosso setor criou o produto, primeiro em papel e agora em cartão e de uma forma bem apresentável, como se fosse um presente de Natal. Isso estimula as empresas a darem um produto que, apesar de ser sazonal, tem crescido no volume de vendas das operadoras”, atesta Arthur Almeida, da Assert.

E já que esse conceito apareceu novamente, mais um exemplo de comodidade para o RH via cartões: para ajudar os funcionários recém-contratados, a Ticket oferece o Cartão RH. “Era muito comum o novo colaborador ficar até três semanas sem o benefício até que a área de recursos humanos pedisse o cartão dele. O que fizemos foi uma solução 100% web em que o RH pede um cartão em nome da empresa com a facilidade de entregar ao novo colaborador o benefício desde seu primeiro dia. Depois do uso no período pré-estabelecido, a empresa pode recarregá-lo e repassá-lo para outro novo funcionário”, detalha Fernandes, gerente de marketing e produtos da Ticket.

A reboque dos cartões vêm outras soluções tecnológicas e serviços para ajudar trabalhadores e empresas. Na linha da gestão de despesas, por exemplo, a Sodexo lançou neste ano um produto com tecnologia via celular para o gerenciamento de despesas de táxi. “O usuário paga a corrida pelo celular e valor cai direto no centro de custo da pessoa”, esclarece Celso Fernandes, diretor comercial.

A Visa Vale também oferece um canal de relacionamento totalmente via internet. Uma das ferramentas disponíveis é o kit faturamento, composto de nota fiscal eletrônica, boletos, demonstrativo e, também, reemissão de cartões e cancelamento de pedidos. Já os usuários podem ter melhor controle das transações feitas com o cartão, pois acessam o saldo diretamente no site da operadora. O chat online funciona no lugar do atendimento telefônico.

Celso Fernandes, da Sodexo: conscientização no próprio cartão

Desvirtuamento
Uma das principais preocupações do setor de benefício-refeição, quando da introdução dos cartões em substituição aos vouchers de papel há cerca de cinco anos, era reduzir o alto grau de desvirtuamento do sistema. Naquela época, as perdas correspondiam a cerca de 6% do faturamento total do segmento. “Esse número foi medido por uma pesquisa que a Assert fez juntamente com o Ibope no início desta década com os usuários do sistema e 6% dos trabalhadores entrevistados disseram que ´vendiam´ o benefício porque precisavam do dinheiro para pagar outras coisas”, conta Arthur Almeida, diretor-presidente da associação.

Ele explica que, quando o benefício era oferecido em papel, havia uma facilidade maior para o desenvolvimento de um mercado negro de compra de vales, justamente porque era muito difícil controlar os vouchers e os intermediários negociavam até na porta das empresas. “Com os cartões, criou-se uma dificuldade para essas pessoas, pois só é possível fazer reembolsos por créditos apresentados em cartões do sistema de refeição-convênio para estabelecimentos credenciados e por meio de conta bancária específica daquele que apresentou”, esclarece. Mesmo assim, esse escambo com os cartões ainda é possível.

A Visa Vale, desde que entrou no mercado, em 2003, opera apenas com cartões magnéticos em 100% de seus negócios, tanto na concessão de vale-refeição, utilizado em restaurantes, quanto no vale-alimentação, aceito em supermercados e mercearias. “Isso promove um grande diferencial de custo na operação, além de possibilitar a preservação do meio ambiente, já que a empresa nunca utilizou vouchers de papel”, comenta Newton Martins Neiva, presidente da operadora.

Para o executivo, o uso do cartão de chip nominal e com senha pessoal reforça a questão da segurança para os usuários. “Caso o funcionário o perca, é só substituí-lo por outro sem perder o direito ao valor existente, ao contrário do que acontece com os tíquetes de papel”, complementa Neiva.

Ações práticas
A Sodexo e a Ticket investem fortemente em comunicação e conscientização para evitar o desvirtuamento. Celso Fernandes, diretor comercial da Sodexo, afirma que todos os cartões da operadora trazem em seu verso um aviso ao beneficiário, informando que a troca do benefício por dinheiro e não usá-lo da forma como
foi concebido constitui crime de estelionato.

Já a Ticket, segundo Maximiliano Fernandes, gerente de marketing e produtos, faz um trabalho recorrente e que começou em 1995 com uma ação de recadastramento, cujo objetivo era ter uma dimensão de qual era o correto valor médio de reembolso por tipo de estabelecimento. “Não tem muita mágica. O restaurante tem um giro de duas ou três vezes, que respondem por um volume estimado de refeições servidas por dia. Com base nesse dado, conseguimos monitorar se
existe um descolamento muito grande de valores e, caso haja desvirtuamento, nós o descredenciamos”, completa.

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