Gestão

Válvulas de escape

Por Vinícius Cherobino
17 de junho de 2011

Um transporte público ineficiente e uma oferta de crédito abundante estão colocando cada vez mais veículos nas ruas das grandes metrópoles brasileiras. O resultado disso são horas e mais horas perdidas em engarrafamentos e um cansaço que já aparece antes do início do dia de trabalho. Quem começou o dia entre buzinas, fumaça e filas de automóveis não terá, definitivamente, a mesma produtividade e disposição de quem chegou em 15 minutos ao escritório – ou nem precisou sair de casa. “Depois de duas horas no trânsito, o profissional já chega despreparado para tocar o trabalho naquele dia. A área de gestão de pessoas precisa, cada vez mais, achar uma maneira para que a produtividade das empresas não seja afetada”, diz a consultora em RH Dirce Vassimon. Mas como fazer isso? Várias estratégias estão sendo implementadas para contornar esse problema. Muitas empresas apostam em iniciativas de mobilidade e flexibilidade que, até pouco tempo atrás, eram inimagináveis no dia a dia corporativo. Entre as iniciativas mais comuns para minimizar os efeitos do trânsito caótico estão os programas de ginástica laboral, criação de horários de trabalho flexíveis, o home office (trabalho em casa) e os escritórios virtuais.

O home office, por exemplo, ainda é visto negativamente por algumas companhias, mas pesquisas e casos de sucesso atestam a efetividade do modelo. Um levantamento encomendado pela Cisco, companhia de redes, mostra que a maioria dos brasileiros acredita que a produtividade não está relacionada com a jornada de trabalho dentro das empresas: 76% deles acreditam que não é preciso estar fisicamente no local de trabalho para ser produtivo. A preferência dos brasileiros por trabalhar remotamente está acima da média mundial, que foi de 60%, e só abaixo da Índia, com 93% e China, com 81%. O estudo revelou, também, que 83% dos brasileiros estariam dispostos a trocar salários altos por maior mobilidade e flexibilidade de horário de trabalho. A média mundial para este item foi de 66%.

Fora do trânsito, dentro de casa
Na Cisco, os profissionais podem trabalhar no modelo de home office e com horários flexíveis, como explica o diretor de engenharia da companhia, Marcelo Ehalt. “O profissional pode estar conectado onde quer que esteja. A Cisco faz o custeio da banda larga e o funcionário tem um equipamento conectado diretamente na nossa rede e um telefone IP”, diz. Ehalt conta, ainda, que ninguém na empresa tem um espaço fixo, nem mesmo os diretores ou presidente. Quando as pessoas decidem vir ao escritório, podem se alocar em qualquer espaço ou sala livre e, como utilizam o telefone IP, têm o seu próprio ramal em qualquer lugar. Segundo a diretora de recursos humanos da Cisco Brasil, Rose Mary Morano, todos os profissionais da companhia podem trabalhar remotamente, o que significa que os escritórios da empresa puderam, no mundo inteiro, ter um tamanho menor do que o que seria necessário se todos os funcionários viessem ao local de trabalho diariamente. “O importante é estar conectado e concentrado no cumprimento das metas. As pessoas que vão ao escritório fazem isso por um objetivo específico – ou para fazer uma reunião de telepresença ou para um encontro que preferem fazer pessoalmente, por exemplo”, destaca.

Outra empresa que possui um modelo flexível de trabalho é a IBM. A companhia tem, hoje, um programa de horários flexíveis e um de home office. Lá, desde 2005, o funcionário pode escolher seu horário. Além disso, há a chamada semana de trabalho comprimida, que, segundo a gerente do programa diversidade da IBM Brasil, Gabriela Herz, foi criada para auxiliar o funcionário que precisa se ausentar por meio período ou por um dia inteiro por semana, para se dedicar a outras atividades. “Há também o FlexiPlace, que permite aos funcionários trabalharem 40% de sua jornada semanal em casa, ou em outro local. Isso significa que o profissional trabalhará três dias por semana na IBM e dois dias de casa”, explica Gabriela. Alguns, segundo ela, também fazem home office em um maior período de tempo, mas estes são escolhidos conforme a sua função e mediante aprovação gerencial.

A estratégia de horário flexível não prospera somente nas grandes empresas. Algumas companhias de menor porte também têm investido em esquemas parecidos. A Digibase, especializada no fornecimento de bases de dados geográficos, oferece um modelo desse tipo para determinados profissionais que não precisam trabalhar especificamente do escritório. O diretor de marketing da companhia, Felipe Seabra, explica que os colaboradores que moram próximo do escritório entram às 9h e os que vivem mais distantes podem fazer horários flexíveis e começar a trabalhar às 10h ou 11h. Além disso, a Digibase oferece, em casos específicos, um salário maior para o profissional pagar aluguel de um imóvel perto do local de trabalho. O próprio diretor é um dos beneficiados deste modelo. Seabra mora em São José dos Campos e foi contratado pela Digibase. O acordo entre os dois prevê um ganho adicional para morar próximo da empresa. “Eu moro a duas quadras do escritório e isso é muito interessante para a empresa, porque faz com que a pessoa dê um resultado melhor e não chegue cansada”, diz. Além disso, Seabra também atua em home office de segunda e sexta. Assim, ele pode emendar o fim de semana e ficar com a família que ainda mora no interior de São Paulo. “Trabalho na área de marketing e comercial. Não preciso estar sempre dentro da empresa para fazer isso”, diz.

Gerenciamento da flexibilidade
É certo, porém, que quando as empresas decidem abrir mão de métodos tradicionais de trabalho, é preciso estabelecer limites, regras e investir no gerenciamento desses programas. “Isso é uma questão de organização junto às áreas. As  que interagem muito dentro das empresas têm de entrar num consenso em termos de horário para não afetar as atividades. O RH é responsável por estabelecer a união entre as áreas para flexibilizar essa ação”, diz a consultora Dirce. Na IBM, a gerente Gabriela explica que há alguns pré-requisitos para ingressar nos programas da companhia. Só podem participar os funcionários cuja presença na empresa não seja fundamental. “Para algumas opções, são considerados o período que o funcionário está na companhia e o nível de produtividade. Além disso, é necessário obter as aprovações gerenciais antes de utilizar as opções”, diz. Na Cisco, a diretora de RH lembra que a gestão da flexibilidade fica por conta do gerente. “O líder tem de estabelecer metas precisas e fazer a gestão da evolução delas. Quando alguém derrapa, faz parte do trabalho do gestor realinhar essas metas com a pessoa”, diz. Para ela, a riqueza desse processo está na capacidade de estabelecer metas e acompanhá-las.

Além dos modelos de horários flexíveis e home office, os chamados escritórios virtuais são também uma resposta à nova realidade do tráfego das grandes metrópoles.  “Os escritórios virtuais são salas que podem ser alugadas pelas companhias. Eles têm uma infraestrutura ótima com telões, internet, telefones, atendimento de copeiras, ou seja, toda a estrutura de um escritório”, explica Dirce. Segundo ela, as companhias têm alugado esses espaços – geralmente mais bem localizados do que o escritório da empresa – para promover reuniões com clientes e fornecedores. Além disso, as companhias os usam para encontros pontuais que irão ocorrer até mais tarde com funcionários que moram mais próximo do local alugado. Isso pode ocorrer, por exemplo, com uma empresa que fica em Alphaville, mas terá de se reunir com clientes da Zona Leste da cidadde de São Paulo, por exemplo.

Fretamento em foco
Outra opção das empresas interessadas em driblar o estresse do trânsito é o fretamento de ônibus para levar os funcionários aos escritórios e, assim, evitar o cansaço de horas atrás do volante ou no transporte público. A fabricante de cosméticos Natura investe há mais de 20 anos nesse tipo de transporte. A gerente de administração de RH e gestão de terceiros da empresa, Wanda Csorgo, conta que a companhia contrata 103 linhas de ônibus. Divididas em três turnos, a frota transporta diariamente cerca de 3.350 usuários que vão para localidades como Cajamar, Itapecerica e Alphaville. “Na pesquisa de satisfação realizada em 2010, 86% dos nossos funcionários aprovaram a ação. Os usuários que optam por esse transporte podem aproveitar o tempo de percurso para dormir, ler ou se relacionar com os colegas de trabalho” diz Wanda.

Apesar dos benefícios, apostar em mobilidade e em flexibilidade exige trabalho – e, acima de tudo, energia para tirar a empresa do estado de letargia em que muitas vezes se encontra. Não será fácil reescrever o modelo das relações de trabalho que está tão enraizado nas empresas. A guinada para mobilidade e flexibilidade está, no Brasil, ainda engatinhando, mas os benefícios compensam – e muito – os riscos. Quem ficou horas atrás do volante para chegar ao trabalho que o diga.

De mal a pior
Dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) apontam que, em 2010, a frota brasileira atingiu mais de 64 milhões de veículos em todo o país, alta de 8,4 % no ano, e uma impressionante expansão de 119% na última década.

A realidade do tráfego nas maiores cidades do mundo tem piorado a cada ano. Um estudo feito pela IBM com 8.192 motoristas de 20 cidades do mundo aponta que para a maioria dos entrevistados (67%) o trânsito piorou nos últimos três anos. No ranking, Pequim e Cidade do México têm os trajetos para o trabalho mais desconfortáveis, enquanto São Paulo é a sexta.

Dos entrevistados, 29% afirmam que o trânsito nas ruas afetou negativamente seu desempenho no trabalho ou na escola, e esse índice sobe para 84% em Pequim, 62% em Nova Delhi e 56% na Cidade do México. Em São Paulo, 61% dos entrevistados afirmam que o tráfego piorou e, deste total, 26% enfatizam que o trânsito piorou muito nos últimos três anos.

O diretor da associação das micro, pequenas e médias empresas de fretamento e turismo do Estado de São Paulo (Assofresp), Geraldo da Silva Maia, diz que a demanda por ônibus fretados tem aumentado diariamente por conta do trânsito. “O uso do fretado, além de tirar o estresse de ter de ficar dirigindo por muitas horas, impacta também no custo, já que o passageiro deixará de pagar combustível e estacionamento”, afirma.

No entanto, os ônibus fretados também são vistos como vilões no trânsito. Na cidade de São Paulo, por exemplo, várias restrições foram aplicadas para diminuir a quantidade deste tipo de veículos rodando pelas ruas do município. Maia acredita que a decisão saiu pela culatra. “O trânsito ficou ainda pior. Os usuários dos fretados são os usuários de carro”, relata. É importante que, ao optar para contratar o serviço, o RH analise a rota e tente pesquisar se há possibilidades de bloqueio pelo governo municipal.

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