Gestão

Vestir a camisa

Paulo Jebaili
8 de julho de 2014
Ricardo Lobão
Lobão, da UIB Benefícios: item de colecionador

Os quadros do escritório do CEO da UIB Benefícios, Ricardo Lobão, não são meramente decorativos. A rigor, nem são quadros, mas camisas esportivas emolduradas. Uma delas é a réplica da usada pelo atacante Arthur Friedenreich, um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro, que atuou no São Paulo na década de 1930. Outra é do ídolo do beisebol Mariano Rivera, dada pelo próprio ex-jogador panamenho, que passou a carreira inteira no New York Yankees.

Essas peças fazem parte de uma coleção que começou nos anos 1980, mas que foi mudando de características e ganhando ressignificações ao longo dos anos. Fã de esportes em geral desde a adolescência, Lobão começou a acumular camisas assim que ingresssou no departamento de informática de uma empresa fornecedora de materiais para a construção civil. Com idas a fábricas e filiais por quase todo o país, aproveitava os intervalos entre as instalações de modens e consertos de computadores para aumentar o seu acervo. “Como viajava bastante pelo Brasil, todo lugar que tinha um time mais peculiar eu ia comprando: Princesa do Solimões (AM), Mixto, de Cuiabá…”, conta.

As primeiras
Antes dessas aquisições sistemáticas, Lobão já tinha algumas peças, como a do São Paulo, campeão brasileiro de 1977, a primeira da coleção. E a do time campeão paulista de 1985, quando entrou em campo com os jogadores e recebeu a do meia Pita. “Um amigo do meu pai era jornalista e me colocou para ser um dos garotos que puxava a fila do time, na final com a Portuguesa”, recorda.

A primeira mudança do perfil da coleção se deu após uma aposta ganha de um amigo corintiano na final do Paulistão de 1988. Com a vitória tricolor, ganhou a camisa do time e, para tripudiar do rival, resolveu enquadrá-la. “De uma brincadeira virou mania. Deixei de ser um acumulador e passei a focar as camisas do São Paulo. Comecei a pegar essas camisas mais importantes e colocá-las em quadros”, diz.

Assim o foi com as camisas dos mundiais interclubes de 1992 e 93. Sendo esta última, autografada no centro de treinamento do clube. O fato se repetiu na preparação para o embarque da disputa do terceiro título, 12 anos depois. Lobão considera essa peça a principal da coleção. “Fui ao CT no dia em que o time embarcou. Era um time que voltaria a disputar um mundial depois de muitos anos. Um momento muito especial. E era um time muito desacreditado, não tinha uma base de gente muito famosa”, comenta.

As molduras foram se avolumando a ponto de o executivo se ver obrigado a alugar um depósito no interior paulista para armazenar parte de seu acervo. “Não tinha mais parede para tudo isso. E tenho várias em caixas”, conta Lobão, que calcula ter de 60 a 65 camisas do São Paulo e, somando-se às dos demais esportes, chega à casa de cem unidades. A quantidade poderia ser maior, caso alguns itens não tivessem se extraviado em mudanças, como a camisa do Criciúma, campeão da Copa do Brasil de 1991, campanha que marcou o primeiro título nacional do técnico Luiz Felipe Scolari, atualmente no comando da seleção brasileira.

Imperador
Mas se algumas peças sumiram, outras apareceram de forma inesperada. É o caso da usada pelo atacante Adriano, não recebida diretamente das mãos do Imperador, mas sim de um amigo, que também é parceiro comercial. “Ele era conselheiro no São Paulo. Um dia, veio aqui no escritório e: ‘Olha, uma surpresa para você: camisa do Adriano, autografada por ele’”, rememora a cena. “Todo mês ele aparecia com uma. De treino, a polo do Muricy, que hoje é comum, mas na época nem tanto. Ele usava umas polos que eram só do treinador e a loja do São Paulo não vendia. A que eu ganhei só começaria a vender dali uns 3 ou 4 meses. Usei até ficar rota.”

Outra que surgiu decorrente da generosidade de companheiros de trabalho remonta aos tempos em que lidava com informática. “Eu estava conversando ao telefone e falando de um jogo de vôlei, que eu iria assistir no ginásio do Ibirapuera.” Uma colega de trabalho ouviu um trecho do papo e revelou que era cunhada da jogadora Ida, que fez história na seleção brasileira. “Três ou quatro semanas depois, ela trouxe uma camisa do Sadia, amarela de manga comprida, com o número 4”, conta.

#L# Depois que decidiu emoldurar as camisas e adquirir as lançadas pelo São Paulo, comemorativas ou das versões lançadas ano a ano, Lobão acrescentou um significado à coleção: guardar peças que tenham marcado passagens de sua vida como aficionado em esportes. Peças de uniforme de modalidades como beisebol, basquete, hóquei, futebol americano foram ganhando espaço. “Atrás da minha mesa tem a camisa da final do Superbowl, em Nova York. Trouxe uma camisa do Denver Broncos, a do Peyton Manning. Foi a camisa com a qual assisti ao jogo. Tenho a camisa que vesti na final do campeonato de Stanley Cup [hóquei no gelo] do ano passado vencida pelo Chicago Blackhawks. A camisa do jogo que assisti do New England Patriots , outra do San Francisco 49ers [futebol americano]. Vou emoldurando.”

#Q#

Camisa do ídolo

O executivo revela especial xodó pela camisa do ídolo do beisebol do Mariano Rivera. “Ganhei das mãos dele. O último personagem da história a jogar com a camisa 42 do New York Yankees. No ano passado, quando ele se aposentou, o time promoveu um tour pelo estádio com um encontro no final com um dos jogadores. Eu comprei com mais de um ano de antecedência o último tour do Rivera, em que o jogador dá uma camisa para os 10, 15 participantes do tour.”

Como é comum a todo colecionador, sempre há um item que é o sonho de consumo. No caso, o de um ídolo do futebol americano. “Tenho uma réplica da camisa do Joe Montana que jogou no San Francisco 49ers na década de 80. Mas estou atrás de uma camisa que seja dele mesmo. Este é um objeto que quem tem não vende. Eu fico procurando um louco que venda uma que tenha um certificado de autenticidade”, diz Lobão.

Com duas Copas do Mundo (2002 e 2006) e a Olimpíada de Atenas 2004 no currículo de torcedor, Lobão tem na agenda uma incursão ao templo mundial do tênis. “Este ano está programado para eu ver dois jogos em Wimbledon. Vou procurar alguma camisa comemorativa para que eu possa mandar fazer um quadro.”

O lado sombrio da coleção
Além das camisas de esportes, outro tema movimenta o colecionismo de Ricardo Lobão: o personagem Darth Vader, da série Star Wars. De chaveiro ao capacete do antagonista dos filmes, são vários os objetos. “A todo lugar que eu vá e encontrê um boneco do Darth Vader diferente, eu coleciono. Tenho uns 35 bonecos do Darth Vader: cabeça de batata, de 60 cm de altura, miniatura, pen drive. O chaveiro da minha casa é um lego do Darth Vader”, diz e conta que o fascínio começou pela voz cavernosa emitida pelo personagem. “Sempre gostei de Star Wars. Achava o máximo a voz do Darth Vader. Quando eu era criança, assistia a Star Wars ininterruptamente. Eu lembro de uma viagem que fiz aos EUA quando era pequeno e lá se vendia uma máscara com um botão que, quando você falasse, a voz saía metálica. Nossa, eu achava aquilo o máximo! Usei aquilo até quebrar.” 

O executivo conta que está com planos de tornar realidade algo que por enquanto está na ficção científica. “Estou planejando a logística para trazer aqueles sabres de luz em tamanho natural sem quebrar.” E diz que já tem espaço reservado. “Tem uma bancada só para ele. Vou colocar esse sabre que liga à noite. Aliás, o abajur do lado da minha cama é do Darth Vader.” Com tanta dedicação, há espaço para alguma outra coleção no dia a dia de Lobão? Não. E o motivo ele explica com ênfase. “Quem coleciona muita coisa não coleciona nada. Porque não consegue focar.”

Lições de liderança

As carreiras de alguns atletas deixam legados que podem servir de inspiração em outros campos

Mariano Rivera
O jogador panamenho estreou na liga profissional em 1995. Encerrou a carreira no ano passado, aos 44 anos. Quem acompanhou sua trajetória exalta o entusiasmo e o desejo de vencer renovados a cada temporada. Doug Dickerson, palestrante e autor de livros sobre liderança, destacou em uma coluna as principais características de Rivera como líder. “A marca de sua liderança não está fundamentada naquilo que se pode conquistar individualmente, mas em como fazer parte de algo bem maior do que você.” Dickerson diz que um líder é feito pelo trabalho que executa, pelas decisões que toma, pelos obstáculos que supera, pelas lições que aprende e pelo desejo de deixar uma marca no mundo. “Sua tarefa não é ser um Rivera, mas a melhor versão que você pode ser como um líder, com paixão e propósito. Com um toque de classe, Rivera nos mostrou a alegria de fazer isso.” O companheiro de time David Robertson conta o que aprendeu com Rivera. “Sua calma, seu comportamento, a maneira como não se abalava quando algo ruim acontecia. Isso é o que vou levar de melhor dele. Ele é um líder pelo exemplo”, disse.

Peyton Manning
Jogador de futebol quatro vezes eleito o melhor da temporada da NFL (principal liga do futebol americano), Peyton Manning se destacou também pelas ações fora de campo. Em 1999 criou a PeyBack Foundation, destinada a crianças e jovens em situações de risco social. Sua ajuda nessa esfera fez com que, em 2007, o Hospital St. Vincent, em Indianápolis, rebatizasse a sua ala infantil com o nome do jogador. No mundo dos negócios, o jogador serve de exemplo em vários aspectos. “Ele tem (características) intangíveis que fazem um líder grande. Um traço marcante é a ‘agilidade no aprendizado’, que é o desejo e a habilidade de aprender com as experiências e aplicar essas lições para ser bem-sucedido em novas situações. Líderes com essa agilidade de aprendizado procuram constantemente novos desafios, feedback, autorreflexão e fazem o que tem de ser feito. Quando ele se aposentar, estou certo de que muitas empresas conversarão com ele sobre liderança”, escreveu o CEO da Korn&Ferry, Gary Burnison, em outubro de 2013. A agente de esportistas Molly Fletcher, que atualmente tem uma consultoria para empresas, destaca que Manning sempre fez questão de reconhecer os companheiros de time, muitas vezes os presenteando com relógios e roupas, especialmente aqueles que fazem a barreira para protegê-lo enquanto executa seus passes e lançamentos. “Grandes líderes premiam e reconhecem suas equipes. De fato, todo mundo gosta de se sentir gratificado e reconhecido pelas conquistas”, escreveu em seu livro The business of being the best (Wiley, 2012). Em outro trecho, Fletcher comenta: “Com um time forte e motivado, existe pouca coisa que você não possa conquistar. Mas, com um time desvalorizado e sem reconhecimento, existe pouca coisa que você pode conquistar”.

 

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