Especial Dia das Mães

Visão da líder

Natalia Gómez
14 de Março de 2012

ESPECIAL MULHER | Entrevista com Raquel Novais | Edição 292

Para advogada, o trabalho é mais um elemento do universo feminino, que é muito rico

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Raquel Novais: o trabalho é muito importante, mas não a única coisa fundamental

À frente do Machado Meyer, um dos quatro maiores escritórios de advocacia do Brasil, a advogada tributarista Raquel Novais sentiu na pele o preço que uma mulher precisa pagar quando deseja alcançar o topo da carreira. Ela é a primeira mulher a ocupar a posição de sócia-administradora no escritório, depois de 25 anos de experiência na empresa. Apesar do sucesso, a experiente advogada conta que sua ascensão ocorreu às custas de sacrifícios e de uma vida tumultuada, na tentativa de conciliar família e carreira.

Na posição de líder do Machado Meyer, ela tem usado sua própria experiência para garantir que as profissionais do seu escritório possam abraçar a vida pessoal e não apenas o trabalho. “Tive uma vida um pouco mais tumultuada, e tenho de fazer algo a respeito no cargo de gestão que ocupo”, afirma. Ela conta que o número de advogadas mulheres no início da carreira é muito elevado, mas são os homens que conseguem chegar ao topo.  Um dos motivos é a dificuldade em conciliar casamento, família e trabalho, pois todos exigem grande dedicação da profissional entre 30 e 35 anos. “É nessa idade que a mulher costuma se tornar sócia de um escritório, mas na vida pessoal ela tem outros grandes saltos na mesma fase”, explica. Para atenuar esses desafios, o Machado Meyer busca dar condições para que suas advogadas não desistam do emprego. Uma das iniciativas é a flexibilidade de horário para a mulher durante os primeiros dois anos de maternidade.

Otimista, Raquel acredita que já houve um grande avanço para a mulher no mercado de trabalho. Sua expectativa é que a geração das suas duas filhas tenha mais condições de ter sucesso na carreira sem abdicar tanto do convívio familiar. A seguir, os principais trechos da entrevista.

MELHOR – Como o fato de ser mulher marcou a sua carreira na área jurídica?
Raquel Novais – Nos cursos de direito, a maioria dos alunos é mulher, com participação de quase 60%. Nos primeiros estágios da profissão, também existe uma predominância feminina, mas, com o desenvolvimento da carreira, as mulheres vão abandonando os escritórios. No topo da carreira dos escritórios e nos tribunais, a predominância é masculina. Alguma coisa acontece no caminho que tira a mulher do curso para o topo.

Qual é esse motivo?
Essa questão não é só brasileira, mas mundial. Nos EUA, apenas 17% dos sócios dos escritórios são mulheres, enquanto no Brasil esse número chega a 20%. No Machado Meyer, é próximo de 30%. Em 2008 começamos a estudar essa questão para entender os motivos e consultamos nossas próprias advogadas. Geralmente, as mulheres se tornam sócias entre os 30 e 35 anos de idade. Mas é justamente nessa fase que ocorrem grandes investimentos pessoais, como casamento, filhos. São muitos saltos importantes ao mesmo tempo. Compatibilizar é uma ginástica.

E qual é o papel da empresa nesse momento?
As organizações precisam entender isso e dar conforto para que as mulheres não desanimem. No nosso escritório, lançamos um programa chamado Mulheres no Machado Meyer. Ele tem como objetivo a retenção de talentos, pois não tratamos o tema da mulher como uma questão de diversidade, ao contrário de outras empresas. Não é o nosso caso, pois aqui há muitas mulheres. A questão é que elas não chegam ao topo, estamos desperdiçando quase 60% dos potenciais talentos. Elas vão fazer outra coisa, vão trabalhar em escritórios menores, balancear a vida. É preciso mudar essa crença e confiar que há espaço para essas mulheres.

E quais são as iniciativas do programa?
Fizemos um diagnóstico e formulamos ações para lidar com essas questões. No caso da maternidade, oferecemos flexibilidade de horário para as mães nos primeiros dois anos. Não existe uma prerrogativa, as situações são debatidas e há participação do gestor. Mas a advogada pode dar uma desacelerada na sua carreira. Não precisa parar, mas apenas reduzir a velocidade para viver esse momento, e depois acelerar novamente. Possibilitamos que ela continue no ambiente de trabalho em um ritmo menor.

Que outros desafios se apresentam para as mulheres?
A questão da rede de contatos é outro ponto que é mais fácil para os homens. Para a mulher, é algo mais elaborado, pois não se pode convidar cliente para happy hour com a mesma tranquilidade do mundo masculino. Tem de cuidar para que isso ocorra em ambientes de seminários, e a empresa também pode ajudar nesse sentido.

Qual orientação daria a outras mulheres? É importante nunca parar de trabalhar?
Cada pessoa tem a sua história. Mas, em geral, eu entendo que a mulher não deve parar. Se puder, é melhor continuar. No meu caso, eu não parei. Casei e tive duas filhas nessa fase e foi com enorme sacrifício. Se não tiver uma grande motivação interior, você pode desanimar. Poucas coisas tiram a minha paz no trabalho, mas, se a minha filha tem febre, isso me tira a paz o dia todo. Por isso preciso que a empresa me apoie se eu precisar trabalhar em casa para cuidar da minha filha. É preciso ter respaldo da organização para viver esse momento. Como tive uma vida um pouco mais tumultuada, tenho de fazer algo a respeito no cargo de gestão que ocupo.

A senhora é otimista quanto ao avanço da mulher no mercado de trabalho?
Vejo enormes avanços e sou otimista. Amadureci muito do começo da profissão até agora. Hoje, penso que trabalho é importantíssimo na vida da mulher, mas não é o fundamental. Ter chance de não abdicar de todo o resto é a chave. O trabalho é um dos elementos do universo feminino, que é muito rico. Minha esperança é que a geração das minhas filhas possa ser bem-sucedida sem precisar abdicar do convívio com os meus netos. Acredito que a complementaridade entre homens e mulheres enriquece o ambiente de trabalho.

Qual foi a sua trajetória até chegar ao comando do escritório?
Sou de Franca (SP) e fiz a faculdade lá. Vim a São Paulo para fazer mestrado em direito tributário em 1985. Passei a trabalhar no escritório em 1987 e estou aqui desde então. Antes, tive outras experiências, como a de professora primária de matemática. Quando era estudante, pensava em ser engenheira, mas depois optei por seguir a mesma profissão do meu pai e do meu avô. Convivi a vida toda com a advocacia em casa, e isso diminuía o convívio com meu pai. Por isso demorei um pouco a aceitar a profissão, mas nunca me arrependi.

 

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