Saúde

Outubro Rosa: como os RHs devem trabalhar o assunto

Fabiana Salles, CEO da GESTO, fala sobre como inserir a campanha nas ações em gestão de saúde das organizações

Da Redação
1 de outubro de 2019

O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do câncer de pele não melanoma.

No Brasil, somente em 2018, a estimativa é de que 59.700 novos casos da doença sejam detectados, com um risco estimado de 56,33 casos a cada 100 mil mulheres, segundo o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva – INCA. Ainda segundo o INCA, cerca de 30% dos casos de câncer de mama podem ser evitados com a adoção de hábitos saudáveis .

Informar para prevenir

Na década de 90, o mês de outubro foi escolhido para a realização de campanhas para estimular a participação da população no controle da doença. Celebrado anualmente, o Outubro Rosa tem o objetivo de compartilhar informações sobre o câncer de mama, conscientizar sobre a doença e contribuir para a redução da mortalidade.

Fabiana Salles, CEO da GESTO / Foto: Divulgação

No ambiente corporativo não pode ser diferente, e as empresas, por meio dos RHs, têm aderido à campanha compartilhando e conscientizando suas funcionárias sobre a importância de buscar informações sobre o assunto. Assim, como parte de uma ação estratégica na gestão de saúde corporativa, as empresas podem promover a saúde e o bem-estar de suas funcionárias e contribuir para a diminuição dos casos.

Para falar do assunto dentro do ambiente corporativo, sobre qual a necessidade e importância de se discutir o tema, a Revista Melhor conversou com Fabiana Salles, CEO da GESTO, health tech do setor de consultoria de benefícios que utiliza ciência de dados para gerenciar de maneira inteligente os planos de saúde.

Qual a importância, por meio do RH, criar programas de incentivo a consultas e exames para as funcionárias?

Fabiana Salles: Nós elaboramos anualmente um levantamento em nossa base de vidas para entender quais são as doenças que mais afastam os colaboradores dos seus postos de trabalho. A dor nas costas ocupa a liderança há cerca de cinco anos e os casos de câncer estão distantes das primeiras colocações. Entretanto, do ponto de vista de impacto, ele é, com certeza, o pior. Para combatê-lo, são necessárias consultas, exames, procedimentos, medicação, internação e reinternação por períodos longos e também por motivos que podem ser predatórios durante o tratamento, como uma gripe, que seria algo simples em outro contexto. Como consequência, o colaborador se torna mais frágil e sensível, precisando se ausentar do posto de trabalho por mais tempo do que o comum.

Isso significa que nós precisamos discutir saúde, ao invés de doença, se quisermos eficiência e sustentabilidade nas duas pontas da cadeia. Quando o assunto é saúde, a prevenção sempre é o melhor caminho para garantir melhores resultados tanto do ponto de vista do indivíduo (condição de saúde) quanto do ponto de vista financeiro (valor do tratamento). Portanto, quando as empresas investem em programas de incentivo a consulta e exames para funcionárias que já estão na idade de fazer o preventivo do câncer de mama, elas por um lado, preservam a saúde de suas colaboradoras, já que identificar um câncer precocemente, além de aumentar expressivamente as chances de cura, torna o tratamento muito menos invasivo para o indivíduo. Ao mesmo tempo, elas controlam melhor o orçamento com o plano de saúde. O custo médio para se tratar um paciente com uma doença em estágio inicial é muito menor do que em casos avançados da doença. Como todos os gastos entram na conta da sinistralidade do plano de saúde, os RHs precisam ficar de olho com o propósito de manter a sustentabilidade do benefício.

Como gestores e funcionários de RHs podem levar, de modo claro e eficaz, informações às funcionárias sobre o câncer de mama?

Fabiana Salles: Nossa melhor recomendação ao RH é que, ao invés de dispersar recursos com campanhas abrangentes e sem mensuração de resultados, eles passem a investir em orientação focada a grupos que realmente precisam fazer a prevenção. A diferença aí está, justamente, em eficiência. Um exemplo de iniciativa pensada nesse formato para empresas que possuem planos de saúde com modelo de coparticipação (em que o colaborador paga um percentual de consultas e exames), por exemplo, é a idealização e comunicação de campanhas de isenção de coparticipação para idas anuais ao ginecologista e exames preventivos.

Como a tecnologia pode auxiliar a empresa nos cuidados com a saúde dos funcionários?

Fabiana Salles: Principalmente por meio da ciência de dados e da predição.

Veja só: estima-se que 12% dos recursos de uma companhia sejam destinados para financiar a saúde dos seus colaboradores, um gasto que perde apenas para a folha de pagamento. De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), atualmente mais de 47 milhões de brasileiros são atendidos pelos planos de saúde. Mais de 65% dessa conta pertence às empresas, visto que a modalidade mais contratada é a coletiva empresarial. E trata-se de um custo que nunca regride, só aumenta. Isso porque, a variação dos custos médicos e hospitalares (VCMH) sobe anualmente na casa dos dois dígitos, em proporções maiores do que a inflação, por exemplo.

Do outro lado está o SUS brasileiro e a distância entre o serviço que temos e o que queremos. Tudo isso significa dizer que a responsabilidade dos gestores que lidam com esse benefício é tal qual a de secretários e ministros da saúde: se tirarem a assistência, a rede pública não dará conta de absorver a demanda, enquanto que se os custos não regredirem, dificilmente seus programas serão sustentáveis.

Neste panorama, da mesma forma que se exige rentabilidade de todo e qualquer recurso, não é mais possível encarar como normal ou natural a gestão baseada em checar o extrato de uso e arcar com os aumentos anuais das operadoras (ou apostar no downgrade para reduzi-lo). E a única forma de mudar esse ciclo é com a implementação da tecnologia para melhorar a visibilidade e a disponibilidade de informações e a transparência em todo o ciclo de vida do benefício, desde a sua contratação até o gerenciamento. Com a adoção de inteligência aplicada aos dados é possível, além de considerar o passado, identificar com clareza o que vai acontecer no futuro.

Os modelos preditivos podem ajudar a identificar situações como o mapeamento de uma população que deveria estar visitando o médico e não está ou então a população que deveria ter feito o exame de prevenção e não o fez. Ao traçar o perfil populacional da companhia, que envolve entender, por exemplo, a proporção de doentes crônicos e de usuários contumazes; cruzar os dados em um movimento de benchmark com o mercado; e simular, a partir daí, o uso no longo prazo, é possível cotar a melhor opção de plano de saúde no longo prazo (que terá cobertura de qualidade para os possíveis casos de doenças que devem surgir no período sem estourar a sinistralidade), além de implementar iniciativas que contribuam para a prevenção e contenção dos casos.

É preciso abrir um grande para-brisa para o gestor enxergar o que vem pela frente e atuar com antecedência para se chegar ao patamar pretendido e não mais deixar o equivalente a 12% do faturamento como um grande buraco negro.

Como a predição em saúde pode atuar na prevenção aos casos de câncer e também na promoção de qualidade de vida e bem-estar dos funcionários?

Fabiana: O que não era tão acessível para as empresas, mas que a GESTO está ajudando a disseminar, é a utilização da tecnologia e ciência de dados para prever casos de alta complexidade e atuar antes que o quadro se instale e/ou seja agravado.

Por exemplo: sem a predição, para auxiliar na prevenção do câncer de mama pode-se criar uma campanha de incentivo à mamografia ou ainda uma ação mais prática como um dia “off” para quem for fazer a mamografia. Entretanto, o gestor só saberá o resultado da adesão muitos meses depois quando tiver acesso ao extrato de uso do plano de saúde. E aí caímos no velho ciclo de discutir doença ao invés de promoção de saúde. Sem visão em tempo real da efetividade das iniciativas e sem ferramentas para entender o histórico passado e prever o futuro fica inviável mensurar o processo com eficiência. Ou seja, dificilmente saberemos com a rapidez necessária quantas dessas mulheres realizaram o exame, quantas levaram ao médico e quantas ainda precisam de algum outro incentivo para se prevenir ou diagnosticar precocemente.

Com a ciência de dados e os modelos preditivos é possível não apenas mensurar em tempo real quantas delas realizaram o exame e quantas levaram ao médico, como ainda adotar medidas mais inteligentes para incentivar o cuidado (como, por exemplo, zerar a coparticipação da mamografia e da consulta com ginecologista para mulheres no grupo de atenção em uma espécie de coparticipação inteligente), fazer contatos personalizados e acolhedores que ajudem a conscientizar a população interna ou ainda prever qual a porcentagem dela que será acometida pela doença (e, com isso, desenhar de forma mais eficiente a cobertura do plano de saúde para que a colaboradora tenha acesso aos tratamentos mais eficientes e que evitem, por exemplo, a reinternação).

Isso porque, ao aplicar inteligência de dados em uma base com mais de 6 milhões de vidas, a GESTO consegue ter um índice alto de assertividade em seus algoritmos preditivos. Em outras palavras, ao conhecer o comportamento de utilização de tantos beneficiários, nós desenvolvemos algoritmos que monitoram perfis de riscos e indicam para a nossa área médica pessoas que devem ser acompanhadas de perto.

Saúde é uma coisa séria, mas que, infelizmente, nem sempre as pessoas colocam em primeiro lugar (falta de tempo é a justificativa mais frequente). Portanto, ter a tecnologia trabalhando a favor da saúde, além de proporcionar qualidade de vida aos colaboradores, contribui para a sustentabilidade do benefício saúde. Se a conta continuar subindo na casa dos 20% ao ano, em breve, as empresas não conseguirão mais arcar com os custos do benefício ao colaborador.

A GESTO preparou algum programa ou atividade relacionada à campanha?

Fabiana Salles: Na GESTO nós temos um boletim mensal de saúde que disparamos aos nossos clientes e, apesar de dedicar a edição de outubro ao tema, sabemos que isso é mais do mesmo. O propósito da nossa atuação é ajudar os nossos clientes a investir em prevenção o ano todo, não só no mês de outubro. Nesse sentido, o que de fato traz resultado para eles é o monitoramento ativo por parte do nosso time médico, que identifica o perfil da beneficiária (que pode ser uma titular e ou uma dependente) que está na idade indicada para o preventivo e que ainda não o fez. Essa identificação é automatizada por meio de algoritmos que transformam dados em informações de qualidade, para que a nossa equipe médica faça um contato com essas mulheres. A ideia dessa abordagem é alertar, de forma direcionada e acolhedora, essas pessoas sobre a importância da prevenção e lembrá-las sobre a periodicidade adequada de realização dos exames.

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