Saúde

Reforçar a relevância

Cuidar da saúde é um diferencial na estratégia de recursos humanos

Da Redação
8 de abril de 2019

Luiz Edmundo Rosa, diretor de desenvolvimento de pessoas da ABRH-Brasil / Foto/: Adriano Vizoni

De nada adianta um bom plano de saúde se as pessoas não se cuidam. Esse é um dos principais pontos de partida de uma discussão que cada vez ganha mais espaço nas empresas: como fazer com que cada colaborador assuma a responsabilidade que lhe cabe de cuidar da própria saúde. Exercer esse protagonismo começa, ou melhor, deveria acontecer logo na contratação do profissional, como destaca Luiz Edmundo Rosa, diretor de desenvolvimento
de pessoas da ABRH- -Brasil. “O plano de saúde deveria ser apresentado, aos futuros colaboradores, como um recurso que exige a utilização consciente e responsável de cada um, e não como um benefício que o colaborador possa usar à vontade e despreocupadamente”, diz, na entrevista a seguir, na qual ele também reforça a necessidade
de o RH sensibilizar o board sobre a importância do tema saúde nas empresas.

Falamos muito sobre Indústria 4.0 e Transformação Digital. Em relação ao tema saúde corporativa, esse novo mundo cria um clima de ansiedade e, em alguns casos, de frustração em algumas pessoas. Como vê essa relação entre avanço da tecnologia/ritmo alucinado de mudanças e a saúde mental das pessoas nas empresas?

Vivemos uma era em que a velocidade das mudanças é tão surpreendente que muitas pessoas e empresas perdem seus referenciais e perspectivas. A digitalização, a inteligência artificial e a robótica passam a ser percebidas como uma prioridade competitiva pelas empresas e como um temor para as pessoas, que se sentem ameaçadas em seus empregos e carreiras. Esse fenômeno é global, mas tem agravantes especiais em nosso país. Face a nossa longa crise
econômica, muitas companhias reduziram suas equipes e aumentaram a pressão por resultados, elevando em demasia o nível de estresse em seus ambientes de trabalho. Isso explica a preocupante tendência do aumento das doenças psicossomáticas. Os profissionais de RH têm registrado que essa disfunção vem crescendo e se tornando um dos motivos da maior utilização dos planos de saúde, com impactos diretos nos seus custos. Uma grande parcela das
pessoas que sofrem de problemas psicossomáticos acaba recorrendo ao caminho mais rápido dos medicamentos.
E, para piorar, o que poderia ser um paliativo circunstancial acaba se alongando em demasia, em prejuízo da produtividade e da qualidade de vida das mesmas. Muitas empresas são incapazes de perceber o que está acontecendo ou mesmo de agir na busca de soluções apropriadas.

E o que cabe ao RH?

A missão de recursos humanos inclui o cuidar como uma de suas maiores forças de geração de valor. Quando RH cuida bem das pessoas, sem paternalismo, assegurando condições apropriadas para trabalhar, elas podem responder com engajamento, iniciativas, inovações e resultados. Infelizmente, devido à crise, muitas equipes de RH foram reduzidas em número e senioridade. Por isso, acabam não conseguindo cuidar das pessoas ou dos custos da saúde
corporativa, que hoje já são a segunda maior despesa de pessoal. Presas aos processos e burocracias mal têm tempo
de cuidar de si mesmas.

A tecnologia permite ao RH ter um melhor acompanhamento e gestão da saúde numa empresa, não? Haveria, ainda, algumas barreiras para isso?

Sem dúvida, a tecnologia abre a possibilidade de se trabalhar com um grande volume de dados. Eles podem ser convertidos em informações objetivas que permitem ao RH atuar sobre as causas da sinistralidade e reduzir seus custos. Em muitas empresas, as informações de saúde estão dispersas e pouco estruturadas para se gerar soluções inteligentes. Sem organização, a tecnologia pouco pode ajudar. Por isso, as empresas precisam definir uma estratégia de saúde abrangente, com indicadores e processos integrados. Só assim a tecnologia poderá gerar informações
relevantes, que contribuam para obter resultados eficazes.

Dentre alguns dos desafios que ainda a área de RH deve ultrapassar, temos a questão de conscientização da pessoa de que a saúde é de sua responsabilidade. Como fazer com que cada funcionário seja protagonista do cuidado
da própria saúde?

Conseguir que os colaboradores se tornem protagonistas da sua própria saúde é um enorme ganho para melhorar os resultados e reduzir os custos da saúde corporativa. A empresa pode começar a trabalhar com o protagonismo já no momento da seleção. O plano de saúde deveria ser apresentado, aos futuros colaboradores, como um recurso que exige a utilização consciente e responsável de cada um, e não como um benefício que o colaborador possa usar à
vontade e despreocupadamente. O protagonismo deveria incluir os hábitos e estilos de vida como uma responsabilidade do colaborador.

De nada adianta um bom plano de saúde se as pessoas não se cuidam. Sabemos que entre os maiores utilizadores do plano de saúde estão aqueles que persistem em seus hábitos inadequados como sedentarismo, se alimentar mal, conviver com sobrepeso, dormir pouco, beber muito etc. Criar uma cultura que promova o protagonismo não é uma tarefa fácil. Passa pela preparação das lideranças para estimular e orientar suas equipes nessa direção. Inclui ações de educação, incentivo e comunicação continuada até que a cultura se consolide. Algumas empresas já contam, em seus programas de desenvolvimento, com indicadores que estimulam o colaborador a cuidar melhor de si, acompanhando sua evolução a partir de metas propostas pela própria pessoa. Estas podem abranger exercícios físicos, melhoria da alimentação, controle de peso, pressão, glicemia entre outros.

Outro ponto refere-se à própria área de RH. A impressão que fica é que ela ainda faz uma gestão de custos quando o tema é saúde. Quando muito, faz a gestão da doença. O que é preciso para fazer uma boa gestão de saúde? Aliás,
esse tema é estratégico para o RH, de fato, ou ainda é estratégico no discurso?

Uma pesquisa realizada pela ABRH-Brasil e a Asap constatou que apenas 18% dos líderes de RH consideram a saúde corporativa uma prioridade. Essa pesquisa foi muito representativa ao ouvir 668 empresas cujos planos de saúde alcançam 3 milhões de colaboradores e dependentes. Em 41% dessas empresas, a gestão da saúde está entregue a um analista ou coordenador. Mesmo que tenham muito boa vontade, falta o preparo adequado, senioridade e autoridade
para cuidar de um tema complexo, de alto custo e que demanda conhecimento especializado. A pesquisa deixa clara a fragilidade das estratégias e de gestão de saúde quando a principal iniciativa das empresas é negociar com os fornecedores, sem que as causas da sinistralidade sejam trabalhadas adequadamente. Cuidar da saúde é um diferencial na estratégia de recursos humanos. Promove o ser humano e o estimula a desenvolver os seus potenciais em benefício próprio, de sua família e da empresa. Saúde não é o oposto de doença. Pelo contrário, é promover de forma global a pessoa nos seus aspectos físicos, intelectuais, emocionais, sociais, espirituais e produtivos. Portanto, saúde deveria estar no âmago das estratégias de RH, pelo valor que adiciona para a empresa se tornar mais inovadora, empreendedora e competitiva.

E como a área de RH pode sensibilizar o board sobre esse tema?

O RH precisa definir seu negócio pela geração de valor, medido por indicadores e acompanhado com critérios quantitativos e qualitativos. Quando fazemos isso de forma clara e consistente, demonstrando resultados e o retorno dos investimentos, ganhamos espaço, delegação e confiança da direção. Nosso desafio é demonstrar o quanto é relevante o que fazemos na linguagem dos negócios.

E como o RH pode se preparar para melhor gerir a saúde na empresa em que atua?

Alguns caminhos podem ser buscados como a troca de experiências entre empresas e a contratação de consultores e fornecedores especializados. Contudo, um caminho valioso é o da educação, que viabiliza capacitar as equipes de RH. Porém, nos currículos dos cursos universitários de graduação e pós-graduação falta uma disciplina voltada para gestão da saúde corporativa, até mesmo naqueles dedicados aos profissionais de recursos humanos. Por isso, a ABRH e a Asap, com o apoio do Fórum Nacional de Saúde Corporativa, integrado por empresas destacadas em vários setores da economia, se propuseram a ajudar as instituições de ensino a preencher essa lacuna. O primeiro programa de gestão da saúde corporativa, com esse apoio, será realizado pela FGV de São Paulo, voltado para os profissionais de RH que cuidam deste tema nas empresas. Seu início está previsto para março de 2019.

*Conteúdo exclusivo publicado na edição de outubro/2018, da Revista Melhor Gestão de Pessoas.

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