Entrevista

Surfando na próxima curva

Revista Melhor entrevistou Maurício Benvenutt, sócio da StartSe que fará palestra nesta terça-feira, primeiro dia do CONARH 2018

Da Redação
13 de agosto de 2018

Carros autônomos, moedas virtuais, robôs que guardam informações e as traduzem em números. Essas e outras descobertas tecnológicas estão revolucionando o mercado de trabalho. Se, de um lado, temos a perda de alguns postos de trabalho, dado esse contexto, do outro há uma ascensão de cargos que até pouco tempo atrás nem existiam.

Maurício Benvenutti, sócio da StartSe, está no CONARH 2018 / Foto: Divulgação

Para Maurício Benvenutti, sócio da StartSe, todo tipo de profissão que trabalha no nível básico da sua atividade será substituída rapidamente pela tecnologia. E o impacto da automatização dos processos não é apenas no mercado de trabalho. “Indústrias inteiras estão sendo desafiadas por novos modelos de negócios”, afirma o estudioso das novas
relações de trabalho.

Diante desse cenário de caos criativo, o visionário empresário, um dos fundadores da XP Investimentos, incita o profissional de RH a ousar e questionar. Veja, a seguir, na íntegra entrevista exclusiva de Benvenutti, direto do Vale do Silício, à revista Melhor.

Qual é o impacto da chamada Revolução 4.0 no mercado de trabalho?

O mundo vem passando por transformações sem precedentes. O que funcionou nos últimos 50 anos não vai funcionar pelos próximos dez anos. Não são apenas produtos e serviços que vêm sendo substituídos; indústrias inteiras estão sendo desafiadas por novos modelos de negócios. Portanto, será que o que vai nos levar para a frente é o mesmo que nos trouxe até aqui? Ou ainda: será que não teremos de desenvolver novas habilidades e competências para avançar, para dar o próximo passo?

Quais são as profissões que estão ameaçadas de extinção ou devem ser transformadas para sobreviver frente a essas mudanças?

Observamos uma transformação no ambiente de trabalho, no futuro do trabalho. Profissões que envolvem alta análise de dados, repetição constante e busca de padrões, tendem a ser substituídas pela tecnologia. Aqui, no Vale do Silício, vejo tecnologias que já corrigem provas como se fossem professores, máquinas que dão diagnósticos médicos com grande índice de assertividade, advogados, contadores… cada vez mais atividades que envolvem muitos dados, repetições, estão sendo substituídas pela tecnologia. Sinto informar, mas todo cargo que tem “analista” no nome vai desaparecer. Não há como competir com as máquinas nesse campo. Elas estão tomando a frente e entregando soluções mais eficazes, baratas e rápidas.

E de que tipo de competência o profissional do futuro deve correr atrás?

Esse cenário, porém, favorece profissões e pessoas que trabalham com a criatividade, na parte estratégica das empresas – a atividade humana caminha nesse sentido. Portanto, toda profissão que trabalha no nível básico da sua atividade será rapidamente substituída pela tecnologia ou você, profissional, que está no nível básico da sua profissão, se especializa e entrega mais valor ou vai reduzir seu padrão de vida. Não existe romantismo nisso.

E qual é o papel do RH nessa revolução?

Ele é fundamental para promover essa mudança. É a área que escoa toda essa transformação, é ela que vai garantir a linguagem, o discurso de transformação da empresa. Para tanto, digo que esse profissional precisa ficar atento a quatro pontos fundamentais que garantirão um RH mais focado no negócio. Trata- -se de uma espécie de manual de
competências que elaborei a partir da minha experiência aqui no Vale do Silício. São eles: estabelecer propósitos
organizacionais; ficar atento à próxima curva; ser questionador; e investir na diversidade dos quadros funcionais.

Interessante mencionar o estabelecimento de propósito como uma das competências do RH. Por que você considera isso preponderante para atrair talentos?

Acredito que, cada vez mais, os talentos são movidos por propósitos. O talento sabe que é bom e ele não vai investir
o tempo dele em qualquer lugar. “Onze em cada dez” empresas aqui no Vale do Silício nascem com o propósito muito forte. Por isso, acredito que o profissional de RH deve pensar qual é o propósito de sua empresa; e qual é o impacto dela na sociedade.

Muitos acreditam que essa história de propósito é apenas discurso. Que argumentos você apresentaria para esse tipo de crítica?

Veja, quando você trabalha sem propósito, o cliente não compra o seu produto, o funcionário não trabalha para você e o investidor não investe no seu negócio. Agora, quando você tem uma empresa baseada em propósito, essa turma toda faz algo mais profundo porque ela passa a acreditar no que você acredita, a sonhar com o que você sonha e a
amar o que você ama. Isso é muito mais profundo do que meramente uma transação comercial. Trabalhar com propósito é fundamental para construir um business que atraia talentos. Hoje em dia, o talento quer embarcar num foguete para ir à Lua, ou você apresenta o tíquete de embarque para lá ou o talento vai investir o tempo dele longe de você.

O segundo ponto que você mencionou é olhar para a próxima curva. O que seria exatamente isso?

O profissional de RH deve estar atento à próxima curva, o que vai acontecer com o futuro de sua indústria, com o futuro de sua empresa, o que está acontecendo com o futuro do mercado de trabalho dentro do seu campo de atuação. Veja, à medida que as empresas crescem, inicia-se a política de inserção de processos, regulamentos e normas. Se, por um lado, isso é bom porque a empresa começa a se tornar uma especialista naquele processo, cometendo poucos erros, por outro, quando o mercado muda, como o negócio está cheio de processos e regulamentos, fica muito difícil destravá-lo para atender uma demanda diferente. Digo que aí mora o perigo. Já recebi aqui no Vale do Silício representantes de empresas de quase todos os setores da economia brasileira. Eles vêm
aqui justamente para saber como tornar a estrutura dessas empresas mais simples para conseguir atender às mudanças de mercado.

Ou seja, o profissional deve estar atento às mudanças, dentro e fora das organizações. Porém, ter esse conhecimento e não questionar as verdades absolutas não o levam a lugar nenhum, certo?

Vivemos num mundo em que as verdades, as normas e padrões estão sendo questionados. As moedas virtuais questionam o mercado financeiro, os aplicativos de compartilhamento de corrida questionam e desafiam as leis municipais. Logo, se você não é um profissional que questiona as verdades, as chances de você ficar para trás são grandes. O profissional de RH deve questionar quais são as verdades que existem na indústria em que atua; verdades essas que poderiam ser “quebradas e superadas” para entregar um valor superior à companhia.

Por fim, você mencionou que o profissional de RH precisa estar atento ao tema diversidade. Você acredita que
as empresas ganham com quadros funcionais diversos?

Ao convivermos, almoçarmos e falarmos todos os dias com as mesmas pessoas, possivelmente, chegaremos às mesmas soluções. É muito difícil algo incomum sair desse diálogo, porque a criatividade só surge quando a gente confronta nossas ideias com quem pensa diferente, quando nos expomos ao inusitado. A diversidade de pensamento é fundamental para que algo único e singular seja criado hoje em dia. O profissional de RH deve ficar atento à forma como a diversidade e a promoção de pensamentos diferentes são gerenciadas dentro da empresa. Hoje, 20% das 500 maiores empresas do mundo já possuem um chief diversity office, que é uma espécie de diretor de diversidade.
Esse cargo foi criado nas organizações para garantir que as empresas tenham diversidade de pensamento no seu quadro funcional.

É possível observar esse movimento no Vale do Silício?

Quase metade das pessoas que trabalham aqui, uma das regiões mais inovadoras do mundo, nasceu fora dos EUA. É muito comum você ter numa mesma mesa de reunião cinco, seis ou até sete nacionalidades diferentes discutindo o mesmo problema. São pessoas de culturas diferentes, de religiões diferentes, orientações sexuais diferentes e princípios diferentes. Levanta uma poeira quando essas pessoas começam a discutir, mas quando a poeira abaixa a solução geralmente é especial, única. Portanto, defendo que deve ser política do RH assegurar essa diversidade nas organizações.

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