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Uma epidemia de doenças mentais

Covid-19 fez empresas e pessoas repensarem hábitos e destruírem tabus em relação à assistência psicológica

Já se passaram quase sete meses desde que a OMS declarou que o mundo estava diante de uma pandemia de Covid-19. Diversos países anunciaram lockdowns, enquanto outros achavam que era somente uma “gripezinha”. Estes últimos, no entanto, viram os números de contágio e mortes escalarem rapidamente.

Junto com o início do alvoroço da Covid-19, uma epidemia silenciosa começava a dar seus sinais. Diante de um cenário incerto, o medo, a angústia, a impotência e diversos outros sentimentos se fizeram presentes na vida de boa parte das pessoas do planeta.

Não era somente com o coronavírus que precisaríamos nos preocupar. Seria preciso desenvolver muita flexibilidade emocional para evitar a avalanche de doenças mentais que se aproximava.

O Brasil, que antes da pandemia já era considerado o país com maior número de pessoas ansiosas no mundo, viu o número de doenças mentais explodir. Um estudo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) apontou para um crescimento de 50% nos quadros de depressão e 80% nos casos de ansiedade, somente nos últimos seis meses.

Além disso, o Google Trends apontou para uma disparada na busca por termos como “terapia online” e “psicólogo online”. Desde março de 2020, esses termos de busca mais que triplicaram, mostrando que a população de fato tem buscado ajuda e orientação profissional para questões psicológicas e emocionais.

Com o isolamento social se fazendo necessário, diversas empresas tomaram a decisão de adotar o modelo de home office para todas aquelas funções que pudessem exercer suas atividades de forma remota. Do dia para noite, milhares de pessoas passaram a trabalhar de casa, mesmo sem ter ainda a estrutura ou capacitação adequada para exercer seu papel à distância.

A angústia, a solidão ou o estresse por ter que coordenar casa, filhos, trabalho e outros afazeres ao mesmo tempo colocaram em risco a saúde emocional de diversos trabalhadores. Isso impactou diretamente os negócios de diversas organizações.

Estudos apontam que as consequências psicológicas do momento atípico que estamos vivendo devem perdurar por pelo menos três anos após a contenção da pandemia.

Veremos o resultado das milhares de mortes e do luto, do aumento do consumo de álcool, da obesidade decorrente da compulsão alimentar, do TOC desencadeado pela compulsão com a higienização das mãos e muito mais.

O covid effect vai impactar diretamente pessoas, negócios e a nova realidade do mercado de trabalho. A busca por terapia online continuará crescendo, acompanhando a demanda, e teremos uma maior abertura da sociedade para debater amplamente questões antes varridas para debaixo do tapete.

Não pairam mais dúvidas de que a temática da saúde mental ganhou prioridade na pauta não apenas dos veículos de comunicação, como também das famílias e das empresas de modo geral. Um estudo conduzido pela consultoria Willis Towers Watson apontou que 61% das empresas pesquisadas haviam implementado ou planejavam implantar serviços de apoio psicológico para seus colaboradores nos últimos meses.

Há anos a OMS alerta para uma perda trilionária ocasionada pela falta de cuidados com a saúde mental dos colaboradores. O Fórum Econômico Mundial chegou a declarar que não tratar doenças como ansiedade e depressão custavam à economia global U$ 1 trilhão anualmente. No entanto, foi preciso uma pandemia surgir para que muitos se dessem conta da importância desta discussão.

Cuidados assistenciais sempre foram mais caros que a atenção primária, mas foi a Covid-19 que conseguiu trazer à tona a urgência do investimento em cuidado preventivo.

Investir em saúde mental dá lucro

Está mais que comprovado que o investimento em saúde mental traz retornos significativos. Seja porque passamos a ter uma sociedade mais saudável, seja porque passamos a colher os frutos da felicidade, da produtividade e de uma vida mais equilibrada.

Para as empresas, o retorno pode chegar a quatro vezes o valor investido em programas de saúde mental e bem-estar, é o que conclui um estudo da OMS. Já a KPMG, afirma em outra pesquisa que esse número pode chegar a 4,32x.

Uma pesquisa realizada pela consultoria PwC, em parceria com a Universidade do Sul da Califórnia demonstrou que funcionários felizes são três vezes mais criativos, 31% mais produtivos e chegam a vender 37% mais que seus pares menos felizes.

O estudo acima, conduzido com mais de 1400 pessoas, avaliou a probabilidade de os funcionários permanecerem na empresa, a eficácia das equipes e a qualidade das relações com os clientes, além de sucesso organizacional em geral.

O projeto revelou ligações definitivas entre bem-estar e desempenho. Apesar disso, um empregador que deseje aumentar a qualidade de vida dos trabalhadores para ganhar em produtividade deve ter em mente que isso não pode estar só no discurso. É preciso fazer com que ações de bem-estar sejam, de fato, implementadas.

De todas as pesquisas, números e publicações sobre o tema, o que me deixa esperançosa por um futuro melhor é perceber que as buscas por termos como terapia online seguem crescendo.

Esse fato, por si só, demonstra que estamos caminhando para um contexto de menor preconceito. Nunca consegui entender por que tantas pessoas investem dinheiro em dietas, academias, procedimentos estéticos e esquecem da peça mais importante do corpo: o cérebro.

Nossa mente é responsável por uma série de funções cognitivas e executivas como aprendizagem, memória, atenção, concentração, foco, criatividade e tantas outras coisas. Sem uma mente saudável o corpo padece.

Um organismo submetido ao estresse crônico, por exemplo, apresenta todo tipo de fadiga, das emocionais às físicas, como dor de cabeça, gastrite, problemas de pele e até doenças autoimunes.

Nosso corpo e mente são máquinas como qualquer outra. Precisam de parada, manutenção preventiva e cuidado. É preciso lubrificar, trocar óleo, parar para a revisão periódica assim como fazemos com os carros. Quando não fazemos isso, literalmente “bugamos.

Se podemos olhar para esta pandemia com uma perspectiva positiva, com certeza eu diria que essa disparada nas buscas por terapia online é uma delas. Além de ser uma pequena amostra de que o tabu aos poucos vai sendo derrubado, também demonstra que o cuidado ficou mais acessível com a transformação digital.

Até a pandemia, muitos psicólogos nunca haviam experimentado esta modalidade de atendimento. A necessidade de migrar para o online provocou não somente o contato com uma nova forma de prestação do serviço, como ajudou a levar o manejo dos psicólogos mais experientes e tradicionais a lares que antes não conseguiam acessar o serviço pela ausência física do mesmo em suas cidades.

Mesmo em uma situação tão adversa e desafiadora, negócios disruptivos seguem avançando e democratizando o acesso aos cuidados de saúde mental.

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Tatiana Pimenta

Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude, startup de psicologia. Única brasileira finalista da premiação internacional Cartier Women's Initiative Awards, em 2019. Engenheira que se apaixonou pela Psicologia, pelo estudo constante do comportamento humano e da felicidade. Com mais de 15 anos de experiência profissional, foi executiva de sucesso em empresas de grande porte como Votorantim Cimentos e Arauco. Encontrou na corrida de rua e na meditação fontes de disciplina, foco, felicidade e produtividade.